No meio de uma campanha eleitoral atípica, a candidatura folclórica de José Manuel Coelho à Presidência da República pareceu normal e estranhamente cativante.
Amigo informado, jornalista conhecedor dos meandros da política portuguesa, garantiu-me que ia colocar a cruz no candidato de Gaula. Paradigmático.
Pode parecer complexo, mas o «fenómeno Coelho» é muito simples de explicar.
Quanto mais teorias metafísicas alimentarem sobre este homem, de falas simples e directas, só vão adensar a aura de herói que efectivamente não tem.
Quem votou nele quis demonstrar desprezo pelos outros candidatos que foram a jogo, e que não conseguiram encher as medidas da populaça.
José Manuel Coelho levou a cruz no boletim porque (quase) todos estão fartos desta democracia e destes políticos, desta nomenclatura e deste «bloco central dos interesses» que governa, em viciada alternância, um país desmotivado, endividado e nauseado de tanta conversa fiada e de políticos manhosos, que não têm mais nenhuma actividade no currículo.
Coelho não traz esperança num futuro melhor, não encarna o político que vai salvar a Nação, nem inspira confiança para que lhe seja entregue as chaves de qualquer gabinete de responsabilidade, seja em Belém ou na Quinta Vigia.
É um comunista que milita num projecto envergonhado e moribundo de direita.
O que ele representa e é nele reflectido - e aí tem mérito pela sua coragem - é o descontentamento generalizado nesta classe bafienta, alapada ao poder, que se bate por um projecto pessoal de manter os seus «tachos» e os dos respectivos amigalhaços, traduzidos em generosas sinecuras estatais. Custe o que custar.
Os grandes animais políticos, capazes de galvanizar multidões, são recordação do passado. Mais uns anos e o seu legado ficará imortalizado apenas nos livros de História.
Podia parecer utópico há uns meses, mas o que Coelho conseguiu numas eleições nacionais, dificilmente consegue nas regionais de Outubro próximo.
A lógica do próximo escrutínio vai ser diferente.
O PSD/M, com a máquina que se lhe (re)conhece, vai fazer campanha porta-a-porta. Com tamanha desproporção de meios, será o mesmo que ver competir um Ferrari e um Fiat 600. A caravana, com a dupla Jardim/Ramos ao comando, vai calcorrear as estradas da Madeira nova, diabolizando e ridicularizando Coelho e companhia. Vão brandir o papão do comunismo, da extrema-direita. Se necessário, vão «ressuscitar» Hitler e Mussolini.
Madeira nova adentro, vão pedir «ajuda» a quem «deram a mão» no passado.
Alberto João Jardim é exímio nessa arte de apelar ao valor da gratidão.
Não sei se ainda se mandam foguetes para o ar e põem a banda a tocar quando o presidente do governo regional aparece, mas quase que aposto que Jardim pressente que desta vez não vão ser favas contadas, nem o habitual passeio pela avenida do Mar.
Com uma oposição (quase) inexistente, muitos vão ter a tentação de tirar um coelho da cartola, o mesmo é dizer: pôr a cruz no actual deputado do PND. Pelo menos nos mais esclarecidos centros urbanos.
A mil quilómetros de distância, lamento que não sobressaia uma figura capaz de se assumir como alternativa forte e credível.
33 anos é muito tempo de poder. A Madeira é mais que Jardim e o PSD.
E não vale a pena dizer mais nada. O resto da história é conhecido: uma sucessão de vícios cristalizados no tempo.
Tudo tem um princípio, um meio e um fim.
É bom termos essa noção.
Roberto Ferreira, Consultor de Comunicação