Martins Júnior Ele há coincidências que até parecem premeditadas lotarias. Na reminiscência do dia em que o monástico celibatário Salazar, lá do fundo da sua cela, decretou que os jovens de um Portugal pigmeu tinham de levar aos irmãos de uma África imensa, não o pão para a boca, mas os morteiros contra o peito - foi em 4 de Fevereiro de 1961 - andava eu a atormentar-me com todo esse genocídio da juventude portuguesa, as consequências irreparáveis para o futuro de um país que tinha tudo para ser global e multi-racial, o colaboracionismo sacrílego de uma Igreja que enviava padres para o inferno da guerra, enfim, dentro desta auto-flagelação inevitável, eis que me bate à porta (reconheci-o pela voz) "um rapaz" de Lisboa, 65 anos, em turismo por cá, mais um daqueles mandados para o matadouro e me atira: "Ó capelão, lembra-se que dia é hoje?...É o 4 de Fevereiro. Faz hoje 44 anos que embarcámos no Cais de Alcântara para Moçambique, dentro do velho Niassa!". Um forte abraço solidário - como só sabem dar os que viveram no mesmo sufoco e nos mesmos perigos - foi a única resposta à pergunta do chefe dos Serviços de Transmissões Militares do B.Caç.1899. Ao almoço falámos de tudo: dos 11 camaradas mortos sobre uma mina anticarro, na picada de Nambude, Cabo Delgado, e que tivemos de levantá-los do chão…as emboscadas…os aerogramas, mais esperados que o toque da refeição, que ora chegavam ora não…"e lembra-se, capelão, dos outros 24 caixões que carreguei aos ombros para dentro do Niassa em Mocímboa da Praia, rumo à metrópole?... enfim, as boas e más recordações há 44 anos guardadas no espólio da nossa memória. E comentámos, com um misto de amargura e de raiva incontida:"Para quê?...E por quem?...E quem paga o sangue derramado, os braços e as pernas mutiladas, os traumas incuráveis, os lares desfeitos, as vidas destruídas?..." Os que nos mandaram para a boca do canhão apregoavam o fantasma do patriotismo. Mas eles, os filhos, os sobrinhos, os netos não foram. Ficaram bem aconchegados na secretaria dos quartéis da metrópole. Eles, os "patriotaças, patrioteiros, patriotarrecas, patriotarrões", como denunciava há mais de cem anos o nosso imortal Eça de Queirós. Suprema ignomínia, criminosa e imperdoável falácia o agitar a bandeira da Pária, quando o que estava em jogo era o interesse do solo e do subsolo africanos, a arrogância de quem manteve a cegueira de querer fechar o mundo numa caixa de fósforos. Se, como dizem, esta cabeça de alfinete de basalto chamada Madeira tem direito à sua autonomia/independência, como não teriam direito à sua incomensurável Pátria os angolanos e os moçambicanos?! Para que os homens não esqueçam. E jamais se atrevam! Felizmente que neste 4 de Fevereiro, o Dia D, (da "Despedida") os egípcios reclamam a maravilhosa manhã do seu "25 de Abril", levantando na Praça da sua Liberdade, Tahrir; o pregão de uma vitória anunciada:"Vai-te embora Faraó, o nosso deus é o Sol". Com eles, os africanos já descobriram a síndrome dos 30 anos de poder:"Chega, vai-te embora!" É o Egipto, é o Iémen, é a Tunísia, outros virão. Trauteando a canção, diria Sérgio Godinho: "E a Madeira aqui tão perto" 4 de Fevereiro de múltiplos aniversários, um dia "fixe" para pensar em ser livre e ser pacífico!