Em primeiro lugar gostaria de justificar a minha ausência, durante este longo período, e agradecer a todos aqueles que sempre me fizeram sentir útil nas minhas reflexões. Interrompi porque receei ser repetitiva e precisei de todo este tempo para voltar a sentir o desejo de comunicar, assim como o sentido de responsabilidade de partilhar algumas das minhas reflexões pessoais com a comunidade a que pertenço. Hoje vou partilhar o meu sentimento acerca da crise. Não há dia em que não se fale da crise, essencialmente ou quase exclusivamente da crise económica e financeira que envolve o nosso país. Sendo certo que esta é uma situação preocupante e socialmente desorganizadora, não deixa de ser verdade que outras crises se associam a ela e que desde há muito, de uma maneira ou de outra, emergem em discursos distintos e por motivos variados. Falo da crise de valores, da crise familiar, da crise da adolescência, da crise da meia-idade, da crise social da crise conjugal, etc. Cada um, decerto ao longo da sua vida, lembrar-se-á de tantos momentos de crise, do significado de cada um deles e das soluções que foi encontrando para os resolver. Porque terá a crise actual o impacto que observamos? Talvez por ser o somatório de muitos outros momentos e situações de crise que, por interesses individuais e colectivos, foram sendo ignorados ou algumas vezes adiados sem prazo definido. E assim fomos caminhando lado a lado, virando a cara ao que não queríamos ver, optando na essência, por aquilo que nos fizesse parecer que se dependesse da nossa vontade e do nosso dinheiro tudo seria possível, tendo na base o consumo fácil e adaptado às necessidades de cada um. Quem não alinhasse estava de fora e desactualizado. Não usar roupas de marca, um desprestigio, não ter casa própria um carro moderno e uma cozinha equipada, uma verdadeira frustração, e um convite a uma certa exclusão social ou então mudança de estatuto. Viajar para destinos de sonho, um direito adquirido tão merecido como um valioso ou excêntrico presente de Natal. As excentricidades no comportamento também exigiam investimento e por vezes comportamentos de risco, como o uso de substâncias que enquanto padrão de moda e facilitador do pseudodominio das emoções, foi ganhando espaço e atraindo adeptos. Tudo era possível era só querer, desejar ou sonhar. Os slogans publicitários não mais faziam e continuam a fazer do que tornar tudo ainda mais apetecível. Parecia que o mundo estava nas nossas mãos. Era só agarrar no globo e pedir um desejo. Aliás tenho como certo que alguém o deve ter feito muitas vezes e nem sempre com a melhor das intenções. Não temos que viver num mundo feito à nossa medida, urge ser criativo e empreendedor, mesmo nas "pequenas coisas". Chegou o momento de aceitar que falhar não só é humano como inevitável e que a mudança não é o fim mas o ponto de viragem. Se a crise actual nos permitir pensar para além do óbvio, já tem pelo menos um ponto positivo. Crise ou um processo inevitável de mudança? Até breve

Manuela Parente, Psicóloga