O alegado mentor da candidatura de José Manuel Coelho à Presidência da República nota que a forma como os madeirenses votaram significa que ultrapassaram a barreira do medo. Não sou tão optimista quanto se mostra João Paulo Gomes na entrevista que se publica na nossa edição de hoje. Teria sido ultrapassada a barreira do medo se toda a gente, ou pelo menos a maioria, tivesse a coragem de assumir o que pensa. Não precisa ser de forma pública, não é preciso vir para rua gritar que se discorda do Governo ou do partido A ou B. Bastava não ter medo de assumir a sua opção ou uma qualquer crítica, mesmo que em pequenos meios. Bastava ter a (nem lhe chamaria coragem) frontalidade de assinar um comentário que vai contra o que pensa a maioria, ou chegar-se à frente para defender um ponto de vista, que até pode estar errado, mas vale como um contributo pessoal numa qualquer discussão. Mas não é assim que as coisas acontecem. O medo persiste em muitas situações, apesar de alguns temerosos indicadores. Sobretudo daqueles que agora são capazes de reconhecer que votaram Coelho, mesmo que esse voto não se repita em Outubro ou nunca mais. Ora, se o medo persiste, quando muito chegámos mais perto da barreira. Mas ela lá está. No inconsciente nas pessoas e no consciente de quem manda mesmo, essa barreira existe e vai ser fortificada nas próximas semanas, nos próximos meses, talvez nos próximos anos. Porque é difícil arrepiar caminho, porque um povo acomodado gosta mais do quentinho do marasmo do que de qualquer aragem provocada por uma discordância, pela ousadia de pensar diferente ou sequer de pensar. Dois exemplos muito concretos: esta quinta-feira recebi uma denúncia para investigação. Quem falou era uma pessoa instruída, mas não se identificou. “Sabe como é...” Eu sei como é! Todos sabemos como é! O familiar que trabalha no governo, o primo que faz parte da Junta de Freguesia, o tio que é amigo do presidente da Casa do Povo, o filho que fornece serviços para o Governo, a filha que está no desemprego e o cunhado que sustenta a família com o dinheiro do Rendimento Mínimo dado por favor. “Sabe como é...”. Claro que sabemos como é! Sabemos e aceitamos pacificamente. É normal. Nesta terra é tudo normal, até a maior aberração da natureza ou da democracia. O segundo exemplo: outra denúncia, por sinal pertinente, contra uma obra pública. Foram-me transmitidos pessoalmente vários pontos de vista, quem está envolvido, quem sabe do negócio, quem pode explicar o que está bem e o que realmente está mal. E à pergunta: “E podemos falar consigo para a reportagem?” A resposta esperada vem rápida. “Ah, eu não”. Pior: nem a família poderia saber que este senhor tinha dado a dica para um trabalho desta natureza. Ou seja, nem os filhos, jovens com trabalho e formação superior, podiam saber do ‘crime’ do pai que quer ver tornado público o que considera uma ilegalidade. Estes exemplos, absolutamente verdadeiros - embora ligeiramente alterados justamente para não identificar ninguém -, são apenas dois entre dezenas de outros do mesmo género. E são a expressão mais clara desse medo que persiste. Com barreira e tudo. Quanto muito, nestas eleições presidenciais, a sátira terá ajudado a quebrar o enguiço de votar de olhos fechados. Quando muito, os eleitores, terão percebido que o seu voto pode fazer a diferença se associado a outros que pensem o mesmo. Mas o medo continua, mesmo que efectivamente mais aligeirado depois de diminuída alguma pressão contida nos últimos anos. Mas, como se diz no início, essa barreira do medo, sentido-se mais desprotegida, já está a procurar reagir. A máquina procura reocupar o seu espaço com manobras apenas aceitáveis num regime de quase partido único. Mais dois exemplos, estes públicos, mas também desta semana. O susto que o Governo quer que as empresas dêem aos bancos e o aviso claro endereçado aos militantes do PSD-M na moção apresentada por Alberto João Jardim. O líder não podia ser mais claro: os “idiotas úteis” que se atreverem a ser notícia por criticarem a orientação do partido devem ser afastados. Nas palavras de Jardim, devem ser “neutralizados” ou postos “fora do grupo”. O mais impressionante disto tudo é que palavras e ideias destas são aplaudidas de pé por aqueles que sabem que persiste a barreira do medo. A diferença é que muitos deles estão do lado de lá da barreira. Até o dia em que caírem em desgraça.