“Mais ou menos”, responde-se na Madeira. No continente é mais “tudo na mesma como a lesma”. São respostas típicas da terra do fado à pergunta de circunstância: “Olá, tudo bem?”.

Quando a vida flui e se está realmente bem, não se admite, por medo do fado/destino que traz a má sorte e o mau olhado. Por isso, raramente se encontra um português, de cá ou de lá, que esteja ‘ok’ e o reconheça de coração aberto ao mundo. Na Madeira, acrescente-se o peso da insularidade, que prolonga aquele estado latente de quem está a caminho de qualquer coisa, mas nunca chega a coisa nenhuma.

Nem bem, nem mal. Assim, assim. Pois, claro. E o país resultante deste estado de espírito, sensaborão e ensimesmado, não podia ser outro. Estamos num banho-maria permanente. Não aquece, nem arrefece. À beira do precipício, mas sem cair. Quase a ultrapassar a coisa, mas sem o conseguir, de facto. A temer a vinda dos ‘bandidos’ do Fundo Monetário Internacional (FMI), mas sem saber se não seria melhor que viessem e despachassem a coisa. Porque assim é que não anda mesmo. Nem para cima, nem para baixo, que no fundo acho que já estamos. Não recuperamos, não damos a volta, estamos condenados a este fadinho chorado permanente.

Pois que a economia é complicada. Está bem, percebemos. As finanças também e as crises não se resolvem de um dia para outro. É compreensível, sim senhor. Mas ninguém consegue viver assim para sempre. Condenados no limbo. No medo e na angústia. De perder o emprego, de não receber o subsídido de férias e de natal, de não conseguir pagar as contas, nem honrar compromissos.

Ainda ontem ouvi duas personalidades em momentos diferentes –o presidente da Associação Nacional de Farmácias, João Cordeiro, e o professor Marcelo Rebelo de Sousa - ensaiarem uma justificação para este estado de coisas. Que muito se muda, mas que se reforma pouco neste país. Que quem chega a um ministério até pode ser competente, mas altera-se a cor política, baralha-se tudo e dá-se cartas outra vez. Na Região esta questão não se coloca, porque estão os mesmos no poder há mais de 30 anos. Ainda assim, os problemas são os mesmos. Porque, na verdade, há excesso de política. Politiza-se tudo e demais. Os lugares, as medidas, os chavões.

Os grandes compromissos do país não deviam ter cor, para além das da nossa bandeira. Responsabilidade não se coaduna com brigas de paróquia e politiquice baixa. E por isso era bom que se tentasse qualquer coisa diferente. Que se referende, se for preciso, que se entregue a política aos políticos e a gestão aos gestores. Que se faça mais do que se promete e se escolha o que é mesmo importante. Mais deputado, menos deputado, é uma questão menor.

Porque mói e cansa esta letargia. O povo está assim, assim. Mais ou menos. Antes assim que pior, não é? Isso foi o que nos ensinaram, mas já é tempo de mudar a cartilha e o fado.