Padre Rafael Andrade É a minha Igreja, na qual nasci, cresci e da qual quase todo o meu modesto património intelectual, espiritual, ncultural e humano herdei. A esta Igreja continuo e quero continuar a pertencer e ser fiel, dentro das minhas limitadas capacidades, e defender até mais não poder. Porém, isto não significa subserviência ou que me deixe ofuscar deliberadamente por supostas ostentações ou subtraia as suas fragilidades e limitações que se identificam com as debilidades dos seus próprios membros. Também não ouso fazer delas publicidade. Seria irresponsável e irracional. A Igreja é autêntica e verdadeira quando deixa transparecer com humildade e compunção aquilo que ela própria é e como é, com méritos e deméritos. Isto não prejudica a sua imagem, mas pelo contrário, enaltece-a e contribui para o seu crescimento, pois a verdade. É fonte de liberdade, biblicamente falando, como há pouco tempo tive oportunidade de referir neste jornal. Há bem poucos dias, escreveu-me uma senhora amiga, de Newcastle, Norte da Inglaterra, resvés com o Muro de Adriano. Para minha total surpresa, critica o actual Papa, por há poucas semanas, ter autorizado a ordenação de três bispos anglicanos como padres católicos, na Catedral de Westminster, consentindo que os mesmos continuem a manter as tradições da Igreja Inglesa. Tratando-se de uma católica, culta, moderada e educada, que conheço há já alguns anos, não escondi a surpresa e perguntei-lhe: Mas acha isso assim tão negativo? Pois é-reagiu-nós aqui temos de enfrentar as críticas e quase ferozes ataques anti-católicos acrescidos de um muito recente escândalo. É assim esta Igreja. É a sua bem visível face humana. Quando em 1969 o então bispo diocesano D.João Saraiva quis saber a minha opinião sobre a provável transferência dos alunos do Curso de Teologia para o Continente a fim de prosseguirem os estudos na Universidade Católica, concordei sem rodeios. Uma vez que vivemos numa pequena ilha perdida no Atlântico, e apesar de tantas loas, o que é inquestionável é que somos profundamente influenciados e caracterizados pelo isolamento, vivendo a uma distância de 900 quilómetros do Continente Europeu. Cruzar os céus e os mares, ir ao encontro doutros ambientes e mentalidades è imprescindível ao progresso humano e contribui, decididamente, para promover o anúncio da Palavra. Há uma característica particular, muito positiva e comum, julgo eu, à generalidade dos padres recém- ordenados que muito me apraz aqui referir e louvar-a prontidão, e mesmo alegria com que aceitam a missão pastoral que lhes é confiada, nos mais recônditos pontos da nossa terra. Duvido se eu próprio assim procederia, em idênticas circunstâncias. Ainda bem que a fórmula clássica do "promitto oboedientiam ac reverentiam" funciona e não se limita a mera rubrica litúrgica. Oxalá não me iluda.. Foi esta, aliás, uma das grandes objecções à saída dos alunos de Teologia para Lisboa-há quarenta anos- a dificuldade que os mesmos poderiam vir a ter em adaptar-se à realidade madeirense, uma vez terminados os estudos superiores. Tal não viria a suceder, felizmente. Acresce, ainda, um pormenor muito positivo. Na sua maioria,as igrejas planeadas há cinquenta anos, aquando a criação das novas paróquias têm vindo a ser progressivamente construidas. Circunstância assinalável que viria a facilitar a missão pastoral dos jovens padres. Parece-me, todavia, que, no currículo universitário dos futuros pastores ou quejandos, deveria constar uma disciplina ou cadeira de são convívio, acolhimento ou relacionamento intergeracional. Para quem tem cultura, inteligência, experiência e alguma fé, não fazem sentido ressentimentos, melindres, receios ou desconfianças. Apesar disso, seguramente, ninguém será marginalizado, suspenso ou excomungado, nem muito menos condenado ou coisa semelhante. Nem idosos, ou como agora se diz, menos jovens, ou iniciandos. Todavia, pairará sobre as comunidades cristãs a nuvem da intolerância, descrença e incoerência entre a pregação e a vida, assim como da inexistente comunhão, termo tão querido e muito frequentemente repetido nas prelecções litúrgicas, o que prejudica, indubitável e seriamente, a causa do Evangelho.