Com meia dúzia de cliques, uma busca por nome ou escola, um rosto que nos parece familiar na lista de amigos de um conhecido. Assim, quase sem darmos conta, o Facebook dá-nos a possibilidade de reencontrarmos amigos de infância, pessoas com quem algum dia nos cruzamos para depois os perdermos na malha dos dias que passam ao sabor de prioridades diferentes, distâncias que aumentam, trabalhos mais ou menos exigentes, ou uma vida familiar que se torna cada vez mais absorvente.

De repente, quando damos por nós, temos uma lista com centenas de amigos e talvez nunca pensássemos que fossem tantos. Entre ex-colegas de escola, que recordamos só de nome, ou nem tanto, amigos de outras eras, quando gostávamos de brincar com bonecas ou à ‘pilhagem’, amores de Verão que duraram apenas umas semanas ou velhas paixões que se prolongaram inexplicavelmente durante meses, colegas de trabalho e amigos verdadeiros, temos ali, num ‘livro de rostos’, pedaços da nossa própria história, passado e presente, e, quem sabe, mesmo indícios para o futuro.

E à distância de um teclado, tudo parece tão fácil. Juntamos velhos a novos amigos, trocamos moradas e números de telefone, prometemos visitas breves e almoços que nunca se concretizam, contamos a nossa vida aos pedaços, juntamos imagens de agora e de outros tempos, retalhamos e construímos o puzzle da nossa existência, com a vontade de nos prolongarmos por mais um nanossegundo ou talvez algo mais, com o objectivo de deixar a nossa marca, para que não nos esqueçam, para que saibam que estamos aqui.

Foi assim, num abrir e fechar de olhos, quase sem esperar mesmo cheia de esperança, que Lucinda Nunes encontrou a filha desaparecida desde Dezembro de 1999, quando tinha apenas 10 anos de idade, naquela que foi a inenarrável tragédia de Vargas na Venezuela.

Lucinda, emigrante de origem madeirense, há quase 12 anos que nada sabia da filha Angely. Mas mesmo quando todos diziam que Angely deveria ter morrido como tantos outros nas enxurradas e deslizamentos de terra daquele Dezembro, ao Norte de Caracas, mãe que é mãe nunca desiste, nunca deixa de acreditar, e Lucinda nunca perdeu a esperança. Afixou cartazes em paragens de autocarro, colocou a foto da filha em pacotes de leite, pediu ajuda a todos de quem se lembrou, no Céu e na Terra. E nunca baixou os braços.

E por um acaso, por causa de uma rede social que fez os criadores milionários e que já serviu de tema para um filme mas que nada tem de ficção, encontrou Angely numa fotografia numa página do Facebook. Quase doze anos mais velha, já sem as feições de criança que a caracterizavam aos 10 anos, a menina hoje mulher, que afinal tinha estado até agora numa instituição para adolescentes em Caracas, mantinha no olhar a Angely de outros tempos. Lucinda rapidamente a reconheceu e hoje mãe e filha voltaram finalmente a se encontrar.

São histórias como estas que me fazem acreditar que, num mundo em que o imediatismo latente também acaba por, mesmo que inadvertidamente, aniquilar as relações humanas, há espaços, mesmo que virtuais, onde ninguém nos deixa esquecer quem somos, de onde viemos e para onde vamos. E isso, faz-me regressar, pelo menos uma vez por semana, à minha página do Facebook.