Gosto de passos. Gosto de acasos. Gosto de linhas que desalinham dias. Gosto de palavras livres de livros. Gosto de imagens que escapam a máquinas. Gosto de música sem instrumentos. Gosto do som do silêncio. Gosto de fotógrafos, de arquitectos, de cidades surpresa. Há alguns anos, numa entrevista, à pergunta "- Sabe tocar algum instrumento?", Gonçalo Byrne respondeu: "- Ainda tentei aprender piano e viola. Mas o instrumento que toco melhor é esferográfica e lápis. Infelizmente, ainda não sei tocar computador." Audaz, o arquitecto desenhou uma deslumbrante analogia entre papel vegetal e pauta musical, entre um esboço manuscrito (a tinta ou a grafite) e a partitura em que se inscreve o que a escrita não sabe ler. Num livro de poemas de Vasco Graça Moura para o qual viria a conceber um conjunto de sublimes fotografias ("Giraldomachias"), Gérard Castello-Lopes contou devotar-lhes uma "atenção de cariz quase musical". O arquitecto toca esse invisível instrumento que nos desenha cidades, praças, moradas. O fotógrafo ouve os acordes das íntimas imagens que cada palavra em si acolhe. E revela-nos, entre luz e sombras, o seu olhar "como se visse as coisas pela primeira vez". Um dia - não muito recente mas tão presente - a afásica música do lápis do arquitecto e a surpresa do olhar inicial do fotógrafo encontraram-se (ao acaso), num dos meus passos por uma outra cidade (a que também chamo minha porque com ela cresci). Em pleno assombro - entre alegria e espanto - na parede que recorta uma escadaria (em que terá pousado a mão do arquitecto porque cada degrau parecia uma das linhas de uma partitura) descubro algumas palavras, livres de livros, e reconheço linhas que desalinham dias. Acerto o passo e as palavras. Ouço o silêncio do desenho feito à mão. Leio, pela primeira vez: "NÓS SOMOS O SÍTIO QUE NOS FAZ FALTA". Ainda aqui estou.

Diana Pimentel