Martins Júnior É bem certo que Natal é quando o Homem quer, Dia dos Namorados é quando eles querem e Dia da Paz é quando a pessoa o faz. Na turbulência dos dias que nos correm fugazes, desde o "tsunami" explosivo dos povos do Médio Oriente até aos apertos e ameaças desta era crítica dos "Mercados", fez-se em Machico um recanto de paz, um oásis de afectos. Aconteceu em 23 de Fevereiro, num concerto suavíssimo e inspirador, sob o signo em epígrafe --- "Em memória de um Amigo". Era uma homenagem de colegas ao jovem professor Fernando Guimarães recentemente falecido. Foi uma pausa breve, não de alienação mas de interioridade reprodutiva, ver e ouvir alunos e professores, miúdos e graúdos, irmanados no mesmo voo em espiral que saía das partituras do "Cisne" de Saint-Saens, da Berceuse" de G.Fauré, o "Menueto" de J.S.Bach, a "Méditation" de J.Massenet, enfim, o "Scherzo" S,Prokofiev, de entre os dezanove excertos que compunham o programa. Apreciei o vasto leque do reportório, desde os clássicos Beethoven e Mendelssonh até aos modernos e popularizados "Strangers in the night" de Keamfert e à virtuosa versatilidade do saxofone sobre um velho tema do nosso Max, a "Rosinha dos limões". Seria oportuno ter evocado a memória do centenário e bicentenário, respectivamente, de Gustav Mahler e do grande génio do piano Franz Liszt. No mesmo enquadramento e porque se tratava da "Memória de um Amigo", para além do prof. Guimarães, acompanhei intimamente, nos bastidores do concerto, a mensagem e as baladas desse perpétuo melodista José Afonso, precisamente em 23 de Fevereiro, data da sua morte, ecoando aos meus ouvidos o seu apelo de sempre:"Traz um amigo também…" A serena apoteose do espectáculo ficou toda ela suspensa naquele ramo de rosas orvalhadas de amor e de saudade que colegas e alunos depositaram nas mãos da jovem esposa do homenageado, um momento da mais pura sensibilidade que nos tocou a todos. Bem hajam os seus promotores por mais este toque mágico sobre o pó cinzento que nos comprime e desestabiliza. Há mais vida além das ditaduras e dos orçamentos. Como alguém dizia ontem nas "Correntes d'Escrita" , ora em curso no Casino da Póvoa de Varzim --- "a poesia (a literatura) não é tudo, mas ajuda a viver" --- assim também podem escrever: estes sons e estes intérpretes não são tudo, mas ajudam a viver. E a amar. E a produzir.