Na Idade Média havia um costume, nalguns países, que consistia em perdoar a pena de morte a um condenado, se este fosse pedido em casamento por uma rapariga. O Código de Justiça Militar francês, em 1668, proibiu que esse costume abrangesse os desertores das tropas. O casamento poderia ser uma forma ardilosa de escapa à forca. Enforca, enforca!... Valério Bexiga, no livro «O Juiz e o fariseu» descreve um caso curioso. Terá acontecido algures em França no séc. XVIII. Um contrabandista, condenado à forca, já se encontrava no cadafalso, com o capuz na cabeça e a corda ao pescoço, quando, na assistência, uma mulher grita que queria casar com ele. A execução é suspensa e a sortuda mulher aproxima-se. Tratava-se de uma mulher feia, coxa e com ar esquisito. Ao ver tal figura, o condenado enfia o capuz na própria cabeça, e grita aflitivamente para o carrasco: «enforca, enforca!...». Justificação religiosa Segundo a Igreja, o casamento é um sacramento de tal modo importante que se justifica aquele "perdão" da pena. Só Deus pode dissolver o casamento com a morte natural. O casamento conferia também especial estatuto e era exigido nalgumas profissões. Por exemplo nas Ordenações Afonsinas e Manuelinas dispunha que "casado deve ser o oficial de justiça". Justificações profanas Algumas pessoas, para justificar tal costume (perdão da forca se o condenado casasse), diziam que não se tratava de um autêntico perdão de pena, mas sim de uma "pena alternativa". O filósofo Séneca (séc. I), ao criticar as condenações à morte decretadas pelo imperador Nero, dizia: "condenados à morte estamos desde que nascemos, e assim, a condenação à morte não é uma verdadeira pena." Talvez por isso, um jurista chamado Despeisses (séc. XVII) concluía que "o casamento é uma pena mais severa do que a morte". Casamento e a filosofia O filósofo Sócrates (séc. IV a.C., casado com Xantipa, que era mulher de mau feitio), dizia aos seus discípulos: "casai-vos, se vos calhar em sorte uma boa mulher, sereis felizes. Se vos couber uma má, sereis filósofos". No mesmo sentido, São Jerónimo (séc. IV) defendeu o celibato por ser o modo de melhor filosofar. E em 1073, o Papa Gregório VII impôs o celibato obrigatório porque "o matrimónio dos sacerdotes é herético e os distraia do serviço ao Senhor", e vários teólogos defendiam que "a sexualidade atrapalha a espiritualidade". Esta perspectiva negativa e "herética" do casamento, acaba por justificar este sacramento como "pena alternativa", embora não tenha sido esse o objectivo da Igreja. A "forca" nos dias de hoje Quando temos conhecimento que alguém se casou, é costume dizer-se, na actualidade, em linguagem calão, "enforcou-se". De certeza que este termo calão, ao equiparar o casamento à forca, tem origem naquele costume medieval.

João Luis Gonçalves