“Vocês jornalistas”. Oiço muitas vezes a frase em conversas de amigos, em tom depreciativo, como se os profissionais da comunicação fossem os grandes responsáveis pelos males do Mundo.

Ou é porque resumem demasiado o linguarejo técnico de médicos, economistas, engenheiros e académicos, com o objectivo de tornar a mensagem compreensível às massas. Normalmente, aqui somos acusados de deturpação.

Ou é porque perseguem estórias até a exaustão. Se envolver dúvidas sobre alguém com cargo público, normalmente os que seguem os pormenores com mais atenção são os primeiros a apontar o dedo aos jornalistas pela maldade de não dar descanso a quem de direito. Malvados!

Há também as queixas das fontes, que acham sempre que o seu discurso foi demasiado cortado. Que o importante não apareceu na peça final e que o jornalista é uma personagem maquiavélica com objectivos escondidos atrás da notícia. Estes ainda são capazes de fazer exigências, ameaças, queixinhas. “Não conte mais comigo”, dizem. Ou “não deve gostar nada de mim”. Como se as notícias se fizessem ao sabor das amizades.

E os que cobram? “Então se já falamos ontem, porque é que não saiu hoje?”, interrogam quase de dedo em riste. Os que contestam tudo e os que assinalam à vírgula. Na política, por exemplo, há os que comparam o espaço dado a si próprio com o dos seus adversários partidários.

Não esqueçamos os que acham que os jornalistas são chatos e que perguntam demais. Nem os que acusam a classe de perguntar de menos e a apelidam de mansa. Os que contestam até as notícias sobre a meteorologia, achando que fazem parte de uma campanha negra contra uma zona do país. Estes são do melhor! E os que, quando as coisas não lhes correm de feição, passam ao ataque pessoal e esgotam os adjectivos da maledicência e má educação.

O dia-a-dia do jornalista é isto tudo. Não se resume à notícia, à entrevista e à reportagem. Tem uma dinâmica própria, que tem importância no resultado final, no que se lê, vê e ouve. E é por isso que, enquanto muitos vaticinam o fim da profissão em virtude dos meios de comunicação emergentes e da tecnologia disponível para todos, eu acredito no contrário.

Porque o jornalista – que como em todas as profissões pode ser mais ou menos competente – é um mediador de constrangimentos. Não no sentido de filtro da realidade, mas no sentido de torná-la mais legível a todos. E por isso quando os jornais se demitem dessa função e fazem capas como a que um jornal nacional fez esta semana – com a divulgação de imagens de um assassinato na capa – são mais nefastos para o jornalismo, do que as muitas vozes críticas que todos os dias se levantam contra os profissionais que exercem esta nobre actividade-