Madeira, levanta-te e anda. Ergue-te sem o chapéu na mão e encima-o, de peito cheio, na tua cabeça. Liberta os olhos do chão e avança perante aqueles que sobre ti se arrogam. Não te vergues aos ingratos filhos que sangram o teu ventre. Esses apenas se alimentam do egoísmo e da fome dos seus irmãos, os teus outros filhos. Não te cubras com o manto da miséria e da decadência que os que de tudo se assoberbam querem que se entranhe sobre as tuas bonita formas. Deixa-te vestir pelos teus longos cabelos de que tanto se enamoram os estranhos que por ti passam. Não ouças os que te apoucam para sobre ti dominar. Acredita na tua grandeza e não te deixes inebriar pelas migalhas que te esmolam da tua própria riqueza. Sacode de ti os ingratos que te sugam o tutano dizendo-se, de boca cheia, franciscanos de ti e do teu povo. Sabes bem as feridas profundas que abriram no teu rosto e as grotescas cicatrizes que em ti deixaram. Vê o cansaço no reflexo atlântico da tua face e diz basta a quem abusa do teu terno afecto maternal. Não sejas a mãe que tudo consente ao filho teimoso e birrento, deixando-se transformar num farrapo abandonado, decrépito e decadente. Não toleres mais este caminho. Estás às portas do abismo e a grandeza alucinada dos que apontam o trilho ao teu povo-filho insiste em seguir em frente. Levanta-te e anda sobre os passos da tua própria marcha. Não é tempo de rebanhos nem de pastores loucos. É tempo de pessoas, de ideias, de partilha, de pensamento, de saber e de compromisso. É tempo de verdade e honestidade, de reflexão e participação. Faz de ti e da tua prole um exemplo para o mundo neste tempo de suicídio. Renega essa falsa autonomia que insiste em alimentar-se fora de ti, secando a tua fertilidade e fazendo-te dependente da indecisão do mundo. Levanta-te e anda. Trás contigo os teus filhos. Ensina-os a não gretar os teus abundantes seios. Educa-os para não serem arrogantes nem sobejos. Sai do torpor que te impuseram sob a ameaça da canga e com o engodo da esmola. És digna. És bela. És rica. No teu seio tens a felicidade que os teus filhos buscam. Engrandece o seu espírito e apaga neles a mesquinha vontade de parecer em vez de ser. Que sejam donos da sua vontade e dos seus valores, que não se castrem renegando o passado dos seus avós. Que não se ceguem deixando nos olhos de alguns a condução ao seu futuro. Que cultivem os poios e as suas mentes. Que as enxadas abram caminho à fertilidade no solo e nas suas almas. Que cada um dos teus filhos, Madeira, seja um cofre de esperança e saber.

Hélder Spínola