Há por certo gratas lembranças de avós carinhosos, aconchego de afectos, repositório de ensinamentos e valores, no imaginário de muitos. São até venerados como repositórios de sabedoria, património familiar, em algumas latitudes. Impossível por isso ficar indiferente a notícias sobre idosos que morrem sozinhos, esquecidos, de quem ninguém sentiu a ausência. Solidão por opção haverá. Indiferença, negligência e abandono são agressões imperdoáveis, falhas de uma sociedade que tanto prega direitos, e é incapaz de atender aos entardeceres da vida de cidadãos merecedores de dignidade atenção e cuidado. Pobre exemplo educativo aos mais novos! Por falência de um Estado Social débil, pobreza, velhice e solidão têm vindo a revelar-se uma tríade nefasta para muitos cidadãos. A pensão, magra para a maioria, mal alimenta a sobrevivência e o complemento solidário para idosos está dependente de burocráticas provas de rendimento. Pobres e anónimos, em regra são socialmente invisíveis, perdendo-se na indiferença da grande urbe. Andrajosos, por vezes falando sós, acomodam-se num banco de jardim, ou na entrada de um prédio para passarem noites desabrigadas das suas ignoradas vidas. É vê-los, à boca da noite, a remexer as sobras das grandes superfícies nos caixotes do lixo. Ou a contar as parcas moedas pretas no supermercado para pagar o magro cesto de compras. Fere, envergonha e revolta saber que há quem os abandone nos hospitais. Coisas de velhos é a espera do hoje ou do ontem na confusão da memória circular de volta à meninice, onde às vezes se esquece quem se é, o que talvez até nem seja mau de todo, não ter consciência dessas coisas. O epílogo da vida pode transformar-se numa etapa amarga, tornando difícil o convívio com os outros. Há as questões de saúde mental e física a provocar o afastamento entre as gerações. É uma etapa da vida que exige muita compreensão, paciência e resistência no caso de patologias degenerativas debilitantes, caracterizadas por uma degradação física nem sempre agradável à vista de uma sociedade individualista, seduzida pela ideia de juventude que se pensa eterna, pelo culto do prazer, para quem o conceito de compromisso e responsabilidade para com o outro se esgota no perímetro da satisfação pessoal imediata… Mas o incómodo e o desconforto que nos morde o ânimo nas agulhadas do remorso e da vergonha, é porque sendo este um país cada vez mais envelhecido, este poderá ser o fim de muitos cidadãos, hoje ainda activos, dentro de alguns anos. Temos estado distraídos e não demos conta do quanto a sociedade, a família em especial, mudou. De família alargada, patriarcal, temos hoje a família nuclear, cada vez mais reconstruída, atípica, monoparental, fazendo rigorosas contas ao custo de bocas a alimentar e abrigar. Num processo contraditório e absurdo do devir das sociedades e da vida moderna, verificamos que quanto mais humanizada está a paisagem em termos de intervenção urbana e concentração populacional, mais nos afastamos uns dos outros em termos de relações afectivas. Um outro aspecto a considerar também é o saber envelhecer. Se aumenta a esperança de vida, isso implicará uma nova organização da sociedade. Importará acautelar essa etapa, com relações de solidariedade, laços de afectos, patrimónios de amizade, entreajuda e cooperação. A construção de redes de vizinhança, de parcerias institucionais. Um novo papel para as instituições de proximidade do cidadão, o poder autárquico, por exemplo. O dever de cada autarca ter do seu concelho da sua freguesia, a radiografia em termos sociais. Um novo papel que vá além da gestão do betão e se encaminhe para as condições de cidadania básica das pessoas. E não ficar-se apenas pelas ribaltas dos talkshows dos prime time televisivos.

Júlia Caré