"Mas é verdade que não se precisa dele - o seu olhar basta-nos." Assim termina 'Perto do olhar', que Fernando Gil escreveu para o catálogo e exposição Insignificâncias de Gérard Castello Lopes. O fotógrafo faleceu neste Fevereiro, em França. Afirmava nunca se ter sentido nem "completamente português nem totalmente francês". E assim viveu, dividido, mas muito empenhado. Nunca uma frase esteve tão errada como aquela que abre este espaço. A não que se afirme o olhar de um fotógrafo como tudo aquilo que ele vive e produz com relação à fotografia. E não apenas as imagens que se dão a ver. Será porventura esse o contributo mais significativo que Gérard Castello Lopes nos deixou: uma intensa capacidade reflexiva sobre a sua própria prática fotográfica e igualmente sobre a fotografia e os fotógrafos. Faz este ano uma década que vi expostas, pela primeira vez, fotografias do 'fotógrafo tímido'. Mostravam-se na capela de Santiago, em Monsaraz, de onde haviam sido tiradas em 1963. E são aqueles rostos alentejanos que recordo em primeiro lugar; e igualmente os reflexos e sombras e vistas anódinas cheias de nadas, nas suas Insignificâncias quase sem rostos humanos no enquadramento, mas plenas de humanismo; e mais ainda, o infinito dum rasto branco levemente ondulante, deixado por um cacilheiro no rio Tejo, onde não se vislumbra o princípio e o fim de nada… Onde se dá a ver a simples PERFEIÇÃO. E essa é a busca de todos os fotógrafos comprometidos com o seu mundo e a sua arte.

Carlos Soares, Fotógrafo