Susana Gomes Em criança conheci uma velhinha. Todas as tardes, com o terço bem entrelaçado nos dedos, dedicava, com fervor, orações a uma figura que chamava "senhor governo". Toda a vida vivera da agricultura, sem outros rendimentos ou ambições, passando meses sem ver uma moeda na carteira. Um dia, disseram-lhe que ia ter algo chamado reforma, dado por um tal de governo aos velhinhos. Agradecida, então, rezava a esse "senhor", tão bom que tirava do seu próprio bolso dinheiro para lhe dar. Cresci e sei que o governo não é um magnata de mãos largas. Mas, tal como muitos, que só procuram Deus nos momentos de aflição, como um extintor para apagar os incêndios inesperados, vejo ser altura de também eu começar a rezar. Por isso, Senhor Governo ponha mão no preço dos combustíveis aqui na região, fixando novamente os preços. Lembrar-me-ei disso quando ligar o carro no dia de me dirigir às urnas eleitorais - sou menos abstémia quando circulo com combustível barato. Não deixe que empresas, com milhões de lucro anual, espoliem o teu rebanho, que qualquer dia andará a pé nas vias rápidas e túneis, que gentilmente lhes cedeste. Senhor governo, nesta altura de crise, protege-nos dos abutres que lambem os beiços à nossa custa. Livra-nos daqueles que querendo lucrar com o nosso desespero nos incitam até a vender a pulseira de ouro do baptismo, aquela que dizia "lembrança dos padrinhos"… Protege-nos dos bancos com letras miudinhas nos contratos, que nos devoram com comissões inesperadas e spreads pecaminosos. O peixe grande foge, esquivo salvando-se sempre nos recifes do lucro fácil, enquanto o pequeno - do cardume -além de ainda lhe palitar os dentes, é alvo fácil de tantas redes, sendo espremido por todos de forma desumana. Ouve a minha parábola, senhor governo, e estende-me a mão, não para me dar um recibo verde, mas para perceber em tantos anos de estudo uma razão. Incitam-me a trabalhar com excelência, mas com salários e ambições congeladas, vendo subir apenas os "nomeados". "Bem-aventurados os muitos que passam o dia no café, pois será deles o rendimento social de inserção", enquanto trabalhamos e descontamos, quem sabe em vão. Senhor governo, garantes que terei reforma como a velhinha que te falei no início desta exposição? Senhor governo, ajuda-me! Sou Jovem, licenciada, empenhada… não deixes que o que me sobra para viver seja pouco mais que uma mesada.