Não há quem se salve neste Portugal crepuscular. De lés a lés, sem excepção, as sensações de abandono e de impotência alastram como uma gangrena, minando a vontade e a acção. Cresce a decepção e, com ela, os protestos de eficácia zero e de efeito catártico duvidoso que, ateados por situações tão díspares como a morte de uma anciã ou a canção de uma banda chamada Deolinda, despoletam reflexões infindáveis que não são mais do que chuva no molhado. Porque, julgo eu, não há ninguém neste país que ainda não se tenha apercebido de que estamos perdidos. Estamos órfãos de Estado, entregues à sorte e ao bom senso dos nossos pares e de todos com quem interagimos. Quando isso falha, o nosso bom senso e o dos outros, estamos lixados. Não há quem nos acuda. É, literalmente, a lei da selva. Não porque não existam instituições cuja natureza seja a de proteger os cidadãos, mas porque todas estão de mãos atadas face à panaceia de leis permissivas e tolerantes que foi sendo urdida ao longo dos tempos a favor dos medíocres de carácter e de acção. Este é o país da bandalheira, onde a nossa integridade física e moral pode ser atacada sem qualquer consequência. É o país - e a região - onde as próprias autoridades, sejam elas policiais ou judiciais, desencorajam vivamente a instauração de processos nos tribunais porque é certo e sabido que o resultado é nulo. É o país da impunidade, dos sorrisos paternalistas que ostentam como lema "ignora, pois não vale a pena contestar". A justiça é, de facto, uma palavra vã em Portugal. Ou melhor, só existe para o Estado que a usa sem contemplações e apenas em proveito próprio. O Estado que, em vez de pai, é padrasto e para o qual não há cidadãos, só contribuintes. Contribuintes entupidos de impostos cujo pagamento não podem falhar. Porque, se falham, a justiça - a mesma que não existe para o vulgo - se encarrega prontamente de avançar com a punição. E fá-lo através desse monstro intimidador chamado Finanças que, tal como a Justiça devia ser, é eficaz e não perdoa nenhum descuido nem contingência. Mas não é cego, pois não chega a todos por igual. Poupa-se a si próprio. Penhora, mas não se penhora. E lança para a miséria centenas de cidadãos num drama vivido no silêncio e na vergonha de quem, mesmo querendo, não pode pagar o que deve porque o que deve aumenta sem parar devido a juros que só não existem quando é o Estado a reembolsar o que, indevidamente, tirou a mais.
E se é certo que tudo isto não é uma novidade, menos certo também não é que, às vezes, a ira, fruto da impotência, se sobrepõe à razão, impelindo-nos à revolta contra o status quo e a dizer basta. Este é o meu basta! Amanhã alguém que me diga "ignora, pois não vale a pena contestar". Hoje não.
Eker Sommer