Sempre acreditei que a partir do momento em que achamos que já sabemos tudo, é o momento em que deixamos de aprender, deixamos de crescer, deixamos de procurar, deixamos de criar, e foi com base neste ideal que encontrei a minha forma de estar na vida profissional. Crescemos e tornamo-nos adultos com ideias pré-concebidas, fazemos “assim” ou “assado”, porque foi “assim” ou “assado” que nos ensinaram, mas quantas são as pessoas que nos incentivam e estimulam a desafiar o pré-concebido, quantos de nós nos atrevemos a desafiar o pré-concebido?

Eis porque gosto tanto de trabalhar com crianças: elas estimulam-nos a desafiar o pré-concebido.

No Atelier, os alunos têm por opção a possibilidade de realizarem anualmente exames de dança clássica (ballet) organizados e avaliados por uma organização internacional – Royal Academy of Dance. O objectivo passa por incentivar a aprendizagem da dança clássica e fornecer ao aluno uma forma de medir o seu desempenho. Para os professores é um instrumento de avaliação ao progresso dos seus alunos e imperativamente também ao seu próprio progresso enquanto professor. Sem dúvida fornecem credibilidade às escolas e aos professores associados a este género de organizações.

Ao fim de 10 anos de ensino questiono a forma como encaramos os exames a que são submetidos os nossos alunos tanto nas artes como no ensino regular. A nossa pressão sobre os alunos é inevitável. Mas, que competências pretendemos realmente aferir com os exames? O quanto tão bom ou tão mau é o seu desempenho sob pressão? No ballet os alunos querem sair-se bem, querem obter bons resultados e por isso se aplicam afincadamente, e naturalmente o progresso é notório e inevitável, no entanto, não é isto que os leva a continuarem a vir às aulas e a querem aprender. Querem dançar, adoram dançar e querem estar em cima de um palco e apresentarem-se ao público com qualidade. O processo de aprendizagem é longo. Na dança clássica o corpo precisa de tempo para aperfeiçoar cada gesto e cada movimento. São necessários anos de escola para atingir a perfeição do movimento, a força e a graciosidade inerentes a esta arte. E durante este longo processo, a nossa função é fazer com que queiram continuar a aprender, que se sintam desafiados e em constante crescimento, vivência e aprendizagem.

Os alunos têm acesso a muito mais informação e a muito mais desinformação do que nós na idade deles tivemos. São bombardeados com a dança e a música comercial, no entanto muitos adoram o ballet e apreciam música com essência. Então o que é que andamos a fazer com o ensino? Será que não estamos a transformá-lo num mecanismo de sucesso pop superficial e instantâneo em que os resultados dos exames correspondem aos resultados das tabelas de álbuns mais vendidos da semana? Não estaremos a dar demasiada importância à quantificação dos resultados? Não deveríamos estar mais concentrados em construir um ensino de valores e competências, estimulantes e desafiantes para estas crianças que hoje nascem e crescem com a possibilidade de serem mais completos e melhor formados do que nós.

Vanessa Fernandes - Professora de Dança Clássica