E ontem o dia amanheceu com sol, tão diferente do que tinha acontecido há um ano. 365 dias depois, nas ruas da cidade, são poucos os sinais vivos da tragédia que assolou a Madeira no ano passado.

Ontem, a água nas ribeiras correu lentamente para o mar, sem o barulho ensurdecedor de pedregulhos arrastados, sem ameaçar transbordar. E as pessoas caminharam nas ruas, apreciando o calor do sol no rosto e na alma, como em qualquer domingo calmo de fim de Inverno.

Mas ontem foi dia para recordar um 20 de Fevereiro diferente, que deixou marcas profundas em todos nós. Um dia em que a chuva não queria parar e que o leito das ribeiras não foi suficiente para aguentar a imensa quantidade de água, de lama, de detritos. Um dia que descaracterizou a Madeira em cenários dantescos de destruição.

Talvez por isso, porque para muitos é impossível esquecer ou fingir que nada aconteceu, que o 20 de Fevereiro já passou e pronto, que a Madeira voltou a ser o que era sem quaisquer cicatrizes, mais de mil madeirenses não tiveram medo de 'gritar' nem de dar a cara por uma causa. Mais de mil madeirenses juntaram-se ontem na Avenida do Mar. De todas as idades, credos e cores políticas, deram as mãos num cordão humano contra o aterro que continua a crescer na Avenida do Mar. E interesses ou objectivos individuais à parte, a mim surpreendeu-me como contra todas as expectativas (de muitos ou só de alguns) o abraço ao aterro formou-se sem problemas, com salvas de palmas e lágrimas nos olhos e a prova de que a tenacidade do povo persiste mesmo contra a força de um temporal, real ou fabricado em tom de ameaças.

Agora, que venham as manhãs de céu azul, os cordões humanos, as salvas de palmas, as homenagens e os memoriais.Que se fale bem ou que se critique, mas que se fale, de preferência em alto e bom som, sem medo de represálias. Que se recordem os mortos, os desaparecidos, os heróis, os voluntários e os gestos. Que não se tape o sol com a peneira e não se embeleze a destruição com paredes falsas de gesso. Que se dêem as mãos sem interesses políticos, que se pense no bem estar de todos e não apenas no de cada um e que o 20 de Fevereiro de 2010 não se repita jamais, por erros ou inconsequências humanas.

É que o cheiro a lama, as imagens da destruição e da força temível dos caudais das ribeiras, esses estarão para sempre, entranhados em nós...