Manuel Nunes Como cidadão que como outros viveu de perto e por dentro as peripécias do "20FEV" e passado um ano desta tragédia, que marcará para sempre a memória dos madeirenses, quase que sou levado a chegar à conclusão que a única consequência do ocorrido naquele dia, é o aterro colocado na baía do Funchal.

Concordo que aquilo não pode ficar como está, que tem que ter uma solução que não descaracterize a baía do Funchal nem ponha em risco a segurança do porto ou contribua para aumentar o grau de risco na eventualidade de novas ocorrência do mesmo tipo.

Muito se tem escrito sobre o destino do aterro. Opiniões são como as cerejas, cada um tem a sua e raramente concorda com a do outro. Vai haver um cordão à volta do aterro, talvez idêntico àquele que há anos se fez à volta do Palácio de S. Lourenço.

O Governo tem um projecto mas não mostra, aliás mostrou agora, a CMF não sabe de nada, mas quando souber vai torná-lo público. Não vale a pena - já toda a gente o conhece.

Mas, passado um ano, só o aterro merece ser discutido? E os planos de emergência que existindo estão desadequados? Será que as corporações de socorro têm os meios para acorrer a situações daquele tipo? Aos seus homens e mulheres foi dado o apoio e a formação necessária para actuarem com maior eficácia e menor risco? Alguém pensou no apoio psicológico que nestas situações é preciso dar a quem anda no terreno? Foi ou está a ser feita alguma fiscalização às obras entretanto feitas nas ribeiras e ribeiros das zonas altas do Funchal?

São algumas questões que podemos colocar a nós próprios e outras constatações que no dia-a-dia, percorrendo ribeiras e serras da nossa terra, verificamos estarem muito aquém do que seria de esperar passados doze meses. Dentro das nossas ribeiras os abusos continuam. Os abusadores são os mesmos, alguns até se arvoram em donos das ribeiras, tapando acessos a qualquer meio de socorro.

Não podemos esquecer as promessas de tanta gente, alguns até bem famosos, que na hora da desgraça ofereceram o que sabiam não querer dar, que se promoveu à custa do sofrimento alheio e que agora diz não ser oportuno, a situação económica está difícil, talvez qualquer dia, etc, etc.

Mas a hora é de trabalho e não de lamentação. Até para honrar aqueles que naquele dia fatídico perderam as suas vidas. Arregacemos as mangas e façamos algo mais do que aquilo que já foi feito.

Pensemos na solidariedade efectiva de milhares de pessoas que cá dentro ou lá fora, apertaram o seu parco orçamento para poderem dar o seu contributo.

Pouco que fosse mas contribuíram e com essa soma de vontades conseguiram-se verbas que permitiram resolver o problema de muita gente, restituir-lhes uma habitação condigna, ajudar a recuperar a saúde perdida.

Finalmente uma homenagem a todos aqueles que integrados em corporações de socorro, de segurança, de voluntariado, militares ou simples cidadãos anónimos, deixaram as suas casas, as suas famílias e sem olhar ao risco deram o seu trabalho de modo desinteressado, durante dias e dias para minimizar o sofrimento dos atingidos e proporcionar-lhes um abrigo digno e seguro.