Cá estamos um ano depois. É verdade, passou um ano desde a "tragédia do 20 de Fevereiro". Já um ano passou. O seu sabor ficou. Mas o tempo não pode parar. E não vale a pena lutar contra o tempo. Passa um dia atrás do outro sem quase se dar conta que se vai. Vão-se os dias pouco a pouco. Passa um mês e logo outro que se lhe segue em apressada correria. Vão-se os meses pouco a pouco. Passa um ano e não regressa, vai embora, quantas vezes despercebido. Vai embora e não volta. Este ano não volta, mas deixa marcas e momentos que a memória não vai deixar esquecer. Vai embora mas perduram, gravados em fogo, momentos belos vividos com sorrisos de alegria e experiências de dor presentes em rostos fechados. Já um ano passou. É grande o desafio. É descobrir, neste passado mais próximo, um alicerce forte e seguro para poder lidar com a inconstância de um presente momentâneo e de um futuro incerto. É usufruir de uma memória que se projecta para um presente a viver e um futuro a construir. É ousar viver sem se limitar a repetir esterilmente caminhos já percorridos por outros, escolhendo caminhos novos e perdendo caminhos velhos. É uma busca constante de nova vida, de novos sonhos, de incessantemente crescer sem ousar repetir velhos erros. É libertar-se do pó da ignorância que tolhe a inteligência e das grilhetas do medo que aprisiona a criatividade e o sonho. É verdade. São coisas tão difíceis de fazer! Pudesse eu (cada um de nós) descrever o que se sente ao perceber a fragilidade da vida, que nasce de um sopro, e com um sopro se vai e, ao mesmo tempo, sentir a sua grandeza que lhe advém da força de querer não parar de viver. Agora é tempo de lutar, de aceitar dar um salto em busca da felicidade, sem reservas. É ser capaz de correr o risco de avançar, não se deixando levar pela ambiguidade. É deixar que a esperança seja a luz do olhar. É ser capaz de apreciar a beleza que existe em cada dia partilhado. É sentir que a vida é um constante refazer, mesmo nas coisas pequenas. Mas para isso é preciso tempo! E o tempo que passa, rasga velozmente a vida que há em nós. Não tem espada e fustiga como o vento forte que, por onde passa, tudo destrói. Mas, pouco a pouco, a vida germina. Passo a passo, renasce a ânsia de viver. É a oportunidade de voltar a viver. O desalento não pode permanecer. Brota a alegria. É um sorriso rasgado, é um olhar transparente. Um ano passou e ficou a memória "cheia" que vai alimentar o nosso caminho, perspectivar o futuro e fazer o mistério da vida acontecer. O que é então viver mais um ano? É saber sorrir à vida e ter por inteiro a alegria. É perceber que a vida é diferente para cada um que vive e saboreia avidamente cada instante. É por tudo isto (e muito mais…) que vale a pena, em cada ano, celebrar o aniversário.
Marco Gomes