Jardim, ao fazer ao povo madeirense o mesmo que faz há mais de 30 anos a todos os partidos da Oposição - podem gritar que aqui não mandam nada! - acaba de inaugurar o direito ao grito. Usemo-lo, já que para isso temos autorização. Mas que semana mais louca a que acabámos de viver. Foram as duas jovens desaparecidas, um socorrista do Sanas morto ao tentar resgatar dois corpos, um corpo que apareceu na serra anos depois, mais outro na Boca dos Namorados, um turista ferido numa levada e uma criança gravemente atropelada. Quando parecia que as coisas iam acalmar, deu-se a maior tempestade política de que tenho memória. O Governo, que passou meses a fingir que governava, deu-lhe para se mexer. De uma assentada só, em dois dias fez duas tremendas asneiras, pelo menos no campo da comunicação. Primeiro foi o aterro. Tanto segredo, tanto segredo durante semanas para depois apresentar um desenho primário, básico mesmo. Resultado, foi o gozo e a ira que se viu. É evidente que uma obra desta envergadura iria sempre gerar polémica, era inevitável. Mas a presidência do Governo, que assumiu a paternidade da divulgação desta solução, podia ao menos prevenir-se um pouco mais e dar alguma sustentação capaz de ir além do panfleto, como muito bem denunciou o arquitecto Luís Vilhena. Mas não. Na ânsia de chegar antes do anunciado cordão humano à volta do aterro, marcado para amanhã, a Quinta Vigia estragou tudo. E até os que não tinham opinião formada sobre o assunto, como eu e muitos outros, olham agora para o projecto, ou desenho, com muitas reservas e bastante desconfiança. Isto, apesar do texto que publicámos ser muito mais atraente que o apresentado pela Quinta Vigia e integralmente copiado pelo Jornal da Madeira. Ainda mal refeitos do susto de tremendo erro político, os madeirenses foram surpreendidos com a brilhante comunicação após Conselho de Governo de quinta-feira, de que, afinal, aquilo do novo hospital, que era uma prioridade, que era a menina dos olhos deste Governo, que era prometido deste os tempos de Conceição Estudante, que era a amostra mais pura das preocupações sociais deste Executivo... pois esse mesmo hospital já era. Esfumou-se. Deixou de ser necessário. Anos e anos depois, descobriu-se que o actual ainda remedeia e vai ficar como novo se tiver um aumento onde só agora se descobriu que há um terreno com bananeiras. Pior do que isso, a população de Santa Rita, que sofreu com as expropriações mal feitas, que passou noites sem dormir, que se sentia enganada... foi mesmo enganada! Afinal já não é preciso, vem agora dizer o Governo com um desplante que não se lhe reconhecia tão apurado. O mesmo Governo que jurava a pés juntos que o novo hospital era uma prioridade, que o estádio do Marítimo era uma prioridade... mantém o estádio, mas deixou cair o hospital e remedeia-se com o que tem, mais umas obras à laia do pai de família que deixa o filho construir dois quartinhos, uma cozinha e uma casa de banho por falta de dinheiro para um apartamento a sério para o rapaz se desenrascar mais a mulher e os três filhos. E no meio disto, coloca-se uma questão: que é feito do planeamento? Por andam as regras da boa administração da coisa pública? Quem se responsabiliza pelo dinheirão que foi gasto em projectos e concursos para uma estrutura que nem vai nascer? E as indemnizações, se as houver, quem as vai pagar? Onde mora o bom-senso que não é capaz de mandar parar parques industriais às moscas, nem reduzir um estádio, nem poupar no alcatrão e tem tanta certeza quando é para mandar parar a construção de um novo hospital? Esta visão absolutamente impensável faz lembrar aqueles meses estranhos em que Portugal teve um primeiro-ministro chamado Pedro Santana Lopes. Também era assim, trapalhada atrás de trapalhada, até à revolta... de Jorge Sampaio. Mas o mais grave desta semana ainda está por referir. Chegou entre o desenho do aterro e a desistência do hospital. E chegou assinado por Alberto João Jardim. Em jeito de aviso, o presidente decretou que o que está dedido, decidido está! "Grite quem gritar" não há alterações, nem cedências, nem audições, nem o mínimo de respeito por quem pensa diferente. Nem mesmo por quem estuda aquelas matérias, nem mesmo pelos que, no Governo e no PSD, timidamente, evitam comentar estas estranhas decisões. "Podem gritar", foi o título do comunicado assinado por Jardim contra os que criticam o aterro. E, de repente, talvez sem se aperceber disso, como não se apercebe de tantas outras coisas, pode ser que o presidente tenho dado um grande contributo à estranha democracia em que vivemos. Pode ser que esta sociedade agachada se levante e comece a gritar. Gritemos pois! Pelo direito de participar, pelo dever de criticar, pela importância de concordar ou discordar. Para fazer valer a nossa cidadania. Porque outros, antes de nós, também gritaram, gritemos nós agora. Mário Soares, que muito gritou antes do 25 de Abril, inaugurou, na democracia que conhecemos, o direito à indignação. Jardim, ao fazer ao povo madeirense o mesmo que faz há mais de 30 anos a todos os partidos da oposição - podem gritar que aqui não mandam nada - acaba de inaugurar o direito ao grito. Usemo-lo, já que para isso temos autorização.

Jardim, ao fazer ao povo madeirense o mesmo que faz há mais de 30 anos a todos os partidos da Oposição - podem gritar que aqui não mandam nada! - acaba de inaugurar o direito ao grito. Usemo-lo, já que para isso temos autorização.

Mas que semana mais louca a que acabámos de viver. Foram as duas jovens desaparecidas, um socorrista do Sanas morto ao tentar resgatar dois corpos, um corpo que apareceu na serra anos depois, mais outro na Boca dos Namorados, um turista ferido numa levada e uma criança gravemente atropelada.

Quando parecia que as coisas iam acalmar, deu-se a maior tempestade política de que tenho memória. O Governo, que passou meses a fingir que governava, deu-lhe para se mexer. De uma assentada só, em dois dias fez duas tremendas asneiras, pelo menos no campo da comunicação.

Primeiro foi o aterro. Tanto segredo, tanto segredo durante semanas para depois apresentar um desenho primário, básico mesmo. Resultado, foi o gozo e a ira que se viu. É evidente que uma obra desta envergadura iria sempre gerar polémica, era inevitável. Mas a presidência do Governo, que assumiu a paternidade da divulgação desta solução, podia ao menos prevenir-se um pouco mais e dar alguma sustentação capaz de ir além do panfleto, como muito bem denunciou o arquitecto Luís Vilhena. Mas não. Na ânsia de chegar antes do anunciado cordão humano à volta do aterro, marcado para amanhã, a Quinta Vigia estragou tudo. E até os que não tinham opinião formada sobre o assunto, como eu e muitos outros, olham agora para o projecto, ou desenho, com muitas reservas e bastante desconfiança. Isto, apesar do texto que publicámos ser muito mais atraente que o apresentado pela Quinta Vigia e integralmente copiado pelo Jornal da Madeira.

Ainda mal refeitos do susto de tremendo erro político, os madeirenses foram surpreendidos com a brilhante comunicação após Conselho de Governo de quinta-feira, de que, afinal, aquilo do novo hospital, que era uma prioridade, que era a menina dos olhos deste Governo, que era prometido deste os tempos de Conceição Estudante, que era a amostra mais pura das preocupações sociais deste Executivo... pois esse mesmo hospital já era. Esfumou-se. Deixou de ser necessário. Anos e anos depois, descobriu-se que o actual ainda remedeia e vai ficar como novo se tiver um aumento onde só agora se descobriu que há um terreno com bananeiras. Pior do que isso, a população de Santa Rita, que sofreu com as expropriações mal feitas, que passou noites sem dormir, que se sentia enganada... foi mesmo enganada! Afinal já não é preciso, vem agora dizer o Governo com um desplante que não se lhe reconhecia tão apurado. O mesmo Governo que jurava a pés juntos que o novo hospital era uma prioridade, que o estádio do Marítimo era uma prioridade... mantém o estádio, mas deixou cair o hospital e remedeia-se com o que tem, mais umas obras à laia do pai de família que deixa o filho construir dois quartinhos, uma cozinha e uma casa de banho por falta de dinheiro para um apartamento a sério para o rapaz se desenrascar mais a mulher e os três filhos.

E no meio disto, coloca-se uma questão: que é feito do planeamento? Por andam as regras da boa administração da coisa pública? Quem se responsabiliza pelo dinheirão que foi gasto em projectos e concursos para uma estrutura que nem vai nascer? E as indemnizações, se as houver, quem as vai pagar? Onde mora o bom-senso que não é capaz de mandar parar parques industriais às moscas, nem reduzir um estádio, nem poupar no alcatrão e tem tanta certeza quando é para mandar parar a construção de um novo hospital?

Esta visão absolutamente impensável faz lembrar aqueles meses estranhos em que Portugal teve um primeiro-ministro chamado Pedro Santana Lopes. Também era assim, trapalhada atrás de trapalhada, até à revolta... de Jorge Sampaio.

Mas o mais grave desta semana ainda está por referir. Chegou entre o desenho do aterro e a desistência do hospital. E chegou assinado por Alberto João Jardim. Em jeito de aviso, o presidente decretou que o que está dedido, decidido está! "Grite quem gritar" não há alterações, nem cedências, nem audições, nem o mínimo de respeito por quem pensa diferente. Nem mesmo por quem estuda aquelas matérias, nem mesmo pelos que, no Governo e no PSD, timidamente, evitam comentar estas estranhas decisões. "Podem gritar", foi o título do comunicado assinado por Jardim contra os que criticam o aterro.

E, de repente, talvez sem se aperceber disso, como não se apercebe de tantas outras coisas, pode ser que o presidente tenho dado um grande contributo à estranha democracia em que vivemos. Pode ser que esta sociedade agachada se levante e comece a gritar. Gritemos pois! Pelo direito de participar, pelo dever de criticar, pela importância de concordar ou discordar. Para fazer valer a nossa cidadania. Porque outros, antes de nós, também gritaram, gritemos nós agora. Mário Soares, que muito gritou antes do 25 de Abril, inaugurou, na democracia que conhecemos, o direito à indignação. Jardim, ao fazer ao povo madeirense o mesmo que faz há mais de 30 anos a todos os partidos da oposição - podem gritar que aqui não mandam nada - acaba de inaugurar o direito ao grito. Usemo-lo, já que para isso temos autorização.