"Arranja-me um emprego. Pode ser na tua empresa, com certeza, eu dava conta do recado e p'ra ti era um sossego", cantas tu. "Canta, canta, amigo canta", respondem eles, debruçados no camarote de Inverno da Praça para ver na tourada os "peões de brega cuja profissão", de facto, "não pega". Pegas tu em ti e, "se a princípio é simples", depois "vem cansaço e o corpo fraqueja". Entretanto, pensaste em enfrentar "ombro a ombro as feras", mas percebeste que mais vale pedir apenas "mais uma pró caminho. Uma taça de tempo encantado", que te fará tropeçar na praça, se calhar esquecer a "raça, o Governo", porque no fundo no fundo, o Inferno sempre é mais "honesto, talvez mais terno, que a indiferença". Apetece-te gritar ao Sr. Engenheiro, pedir-lhe "um pouco de atenção", mas para quê se o homem não passa de um pau mandado, destinado a receber os "olés dos nabos" na púcara dos banqueiros que, infelizmente, não são anarquistas. A Dona Deolinda grita-te de uma janela com vista para a Rua da Madalena que "isto já dura há tempo demais". Grita na mesma janela com vista para um pátio andaluz onde anos antes o Sr. Alberty perguntara, com o seu doce sotaque do sul, indignado, "Donde los Hombres". Grita na mesma janela, com vista para a nova-iorquina Clinton Street, onde o Sr. Cohen prometera conquistar Manhattan. E onde o Sr. Buarque, olhando para o intenso trânsito do meio-dia na Avenida Paulista, se questionara "o que será (que cantam os poetas mais delirantes)". De que servem as canções, pensas tu, quando aquilo que queres é um emprego? Por acaso mudaram alguma coisa, as canções? "Arranja-me um emprego", porque "a gente quer ter voz activa, no nosso destino mandar, mas eis que chega a roda-viva e carrega o destino prá lá". E quem terá razão? Os "inteligentes" que dizem que "acabaram as canções", ou os que te pedem para mudares o destino "com bandarilhas de esperança"? Por mim, prefiro as farpas à bênção da suprema vulgaridade. Nota: Pergunta inspirada por Sérgio Godinho, Tó Macedo, Ary dos Santos, JP Simões, Xutos & Pontapés e Chico Buarque.
Gonçalo Santos, Gestor de projectos