A quase certa criação de um corpo de guardas-nocturnos no concelho de Santa Cruz é mais um exemplo da importância da governação sem maioria absoluta. E é uma significativa forma de afirmação do Poder Local, seja ele de que partido for. A insustentável insegurança que se vive na Camacha já foi demasiado longe para que uma preocupação de tamanha gravidade se perca em ‘rodriguinhos’ burocráticos em que a Política portuguesa é fértil. Está mais do que visto que para o Poder Central, a Camacha é uma localidade segura, mesmo no Bairro da Nogueira. O próprio Ministério da Administração Interna, que manda nas polícias, afirmou-o recentemente com uma certeza baseada na estatística. A Camacha não tem violência que justifique uma esquadra. Ponto final, que em Lisboa ninguém conhece a Camacha, a não ser pelos vimes e o bailinho. Ora, como é do bailado da criminalidade que se fala, só com estatísticas é que Lisboa o reconhece ou renega. Do Poder Regional também já se percebeu que o importante é escudar-se na inércia de Lisboa. E lamentar e acusar Sócrates de nada fazer pela segurança e o habitual choradinho anti-governo socialista. Mas o problema persiste. Os assaltos são quase diários e não escolhem cliente. Pobres e ricos, instituições e até a Igreja local já foram visitadas por ladrões. O problema é a falta de polícias, diz o Poder Regional. E acusa o Poder Central. Entretanto, os assaltos continuam. No meio deste jogo do empurra, a Câmara de Santa Cruz usava a táctica de tentar ‘passar entre a chuva’. Reconhecia baixinho a insegurança, mas gritava bem alto que a Camacha é uma zona segura, para não deixar a vila com má imagem. Entretanto, os assaltos continuam. Agora, fruto dessa minoria ditada pelo eleitores nas últimas eleições autárquicas, a mesma Câmara é ‘obrigada’ a seguir uma interessante proposta do Movimento Juntos Pelo Povo, que cria um corpo de guardas-nocturnos para as zonas mais problemáticas do concelho, sobretudo a Camacha. Ainda por cima, uma proposta razoável, que chama os comerciantes e moradores a pagar e não manda a conta apenas para a Câmara. Perante a justeza da medida, o PS diz que aprova. E o PSD, para não ficar atrás, não só diz que também aprova, como jura que até já tinha pensado nisso. Tinha... mas não avançou! Se tudo correr como previsto, em pouco tempo, além das fracas rondas policiais, a Camacha terá também guardas-nocturnos a vigiar a freguesia e a evitar assaltos. A criminalidade não vai acabar, mas já é um começo para a enfrentar. Ou seja, se não fosse uma válida iniciativa da Oposição local, a Câmara continua a pensar na proposta sem a apresentar, o Poder Regional continuava a jogar as culpas para o burocrático Poder Central. E nada se fazia. Moral da história: imaginem este jogo de poderes ao nível regional, com um Governo minoritário a ter de respeitar as ideias válidas da Oposição. Imaginem só...