A Madeira sempre teve uma excelente produção cultural espontanêa. Prova-o uma panóplia de testemunhos documentais, trazida a público pela mão de investigadores forasteiros, motivados tão só pela paixão musical e pelo desvendar do nosso património. O clima, a paisagem, a natureza, foram concerteza os ingredientes determinantes no cozinhado que temperou este povo e que fez dele um criador nato, esperto e humilde. Com este conjunto de singularidades atadas umas nas outras, os visitantes, rendidos a tão raros encantos e beleza, encarregaram-se eles próprios por nos abrir as portas ao filão do turismo. As tradições brotavam pelos cantos da cidade, a paisagem deslumbrava, as ruas, as casas, o mar, a harmonia, o sonho, o paraíso. Uma ilha assim prendada cuidaria para que nada nem ninguém pusesse em causa o seu futuro. Cuidaria para que a cultura fosse o elo mais forte da sua sociedade. Cuidaria da sua história do seu passado. Cuidaria concerteza da sua principal fonte de riqueza.Mas não, em vez disso e por via de cortes sucessivos, os projectos culturais levam já três anos engavetados, sem qualquer financiamento. Bandas filarmónicas, grupos tradicionais, coros, grupos folclóricos, grupos de bandolins e afins, todos votados ao abandono. Interesses políticos impuseram-nos de tal forma o desporto que arrasou tudo em sua volta e agora se asfixia a si próprio. O turista bem se queixa. Queixa-se e já há uns quantos anos. O povo, esse, deu agora alguns sinais.

Eurico Martins - Director artístico da Orquestra de Bandolins da Madeira