Que pode um homem desejar para o novo ano na Madeira? Que palavras se podem juntar, com nexo e umas a seguir às outras, sem oscilar entre o puzzle da hipocrisia e o jogo das frivolidades. Pode uma pessoa esperar, sinceramente, que o Outro tenha em 2012 um próspero Ano Novo? Isso faz cá sentido?! É rotina, nada mais. Era bom que fosse verdadeiro, mas só o será para alguns, eventualmente os mesmos de sempre. Perante esta dificuldade, o mais correcto será deixar palavras de conforto, de confiança, votos de amizade e de saúde. O resto virá por acréscimo na dose que quem manda nos vai obrigar a aplicar. Sei que alguns Leitores já mudaram de artigo e não os censuro. Estão cansados de pessimismos, já não aturam gente que fala em dificuldades, estão fartos de pessoas sem esperança de que este novo ano será canja. É possível que estejam certos. Oxalá estejam certos! Mas não me demovem. Porque o que está em jogo é muito mais do que um jogo político daqueles em que uns ganham sempre, outros perdem aqui e ganham acolá. Deste vez, perdemos todos. Os que sempre ganharam, os que ganharam às vezes e os que sempre perderam... voltam a perder. O saldo é claramente deficitário. A imagem que me ocorre de forma persistente nos últimos dias deixará boquiaberto o presidente do Governo Regional se alguém lhe disser. Sim, senhor presidente, também acho que já nos estão fazendo a folha a partir de Lisboa. Que começa a ir para lá do normal. Que já carregam demais a nossa frágil canga. Mas ocorre-me simultaneamente uma outra teoria: a de que Lisboa se cansou da ideia de vilanagem que a Madeira foi passando para o outro lado do mar. Que perdemos a piada, muito por causa das suas piadas. Que passámos de atrevidotes engraçados a desgraçados e mal agradecidos. No meio desse pensamento, que admito exagerado, sinto-me um peão que, como milhares de outros, não fez nada de mal mas será castigado à mesma. É o justo pelo pecador, dirão eles no Terreiro do Paço. E é nessa cena quase cinematográfica (é no que dá passar o Natal a ver filmes em cima de filmes) que até consigo ver que alguém nos atirou para uma masmorra enorme e, num plano aberto e longo, ambiente escuro e grave, câmara parada, o realizador (talvez Oliveira) faz encher o plano de madeirenses "d'esquecidos e ostracizados", como diria Herman nos seus velhos tempos. Devagar, o plano fecha-se. Depressa a gente junta-se. A masmorra fecha-se. Os cárceres atiram alguns mantimentos para dentro. E jogam as pesadas chaves para lá da Ponta de São Lourenço. Cá dentro ficam quase todos: os que não puderam fugir, os que acreditaram, os ingénuos, os honestos, os enganados e alguns enganadores também. E, como sempre nestes ajuntamentos, haverá um tolo a cantarolar: "Daqui não saio/daqui ninguém me tira"... E logo outro, vira o cajeirão à boca e maltrata o rajão ao som de "Paz, Pão, Povo e Liberdade ()...". Não haverá dois sem três. Alguém diz 'Dá-lhe Vasque' e sai uma 'orquestra', agora reduzida a um par de beiços e duas gaitas roucas de tanto comício, com uma adaptação livre daquele retumbante êxito "Quem é que haverá/quem é que não acha/que é o Alberto João/que põe a Madeira na tarraxa". É verdade que ainda são Festas, mas isto não é como no Carnaval. No Natal, alguns levam mesmo a mal. A partir deste Natal, todos levamos pela medida grande. A bem ou a mal. O sinal mais recente, porventura aquele em que poucos acreditavam, chega com a nossa edição de hoje, como que a lacrar o que de mal nos aconteceu neste 2011. Ficam os madeirenses a saber que dos 80 milhões que a Madeira reclamava com urgência, recebe menos do que 20 milhões. Sei que a situação é real e que vai deixar muita gente ainda pior do que está, mas não resisto a uma inofensiva laracha. Aquela do pai cujo filho travesso exige 80 escudos para comprar guloseimas e o velho dá-lhe apenas uns trocados que nem chegam a 20 escudos. - Mas Pai, preciso de 80... - Insiste o filho, temeroso. - Leva 20, dá metade a tua irmã e traz-me o troco - responde-nos Pedro Passos Coelho (perdão, o pai). Brincadeiras graves à parte, resta esperar que um ano que se anuncia difícil seja aligeirado rapidamente. Que façam à Madeira o que fazem os bancos às famílias sobreendividadas. Que controlem as gorduras do Estado, as mordomias, os gastos supérfluos. Que tenham a coragem de se auto-afastar os que nos trouxeram até aqui. E que se aproximem aqueles que, mesmo nas cúpulas da maioria, se sentiram manietados para contrariar o chefe que com tanta gana se bateu em lutas banais como tanta fragilidade demonstra na hora de assinar a capitulação. Volto ao princípio: não ouso pedir um próspero Ano Novo. Fico-me por sinceros votos de saúde, paz, confiança e felicidade. O resto será o que Lisboa e a troika quiserem. E eles querem muito!
PS: Uma ideia positiva
Para variar, aqui fica o reconhecimento público por quem teve a bela ideia de expor autênticas peças de arte de quatro rodas na inacabada mas bonita Praça do Mar, no Funchal. Pasmei com tantos exemplares de vários modelos, marcas, cores e feitios e em tão bom estado de conservação. E dei comigo a perguntar: por que raio uma terra com tanto turismo esconde estas maravilhas praticamente o ano inteiro. Sei que não é fácil manter aquelas máquinas, mas também sei que há por aí muito centro cívico e alguns fóruns às moscas que bem podiam acolher alguns daqueles belos exemplares numa exposição permanente sem grandes custos e, aposto, com muitos visitantes. Fica a ideia.