"…Nada pode ser nosso quando precisamos de nos endividar para obter o que queremos…" In "Falidos", Anónimo, Porto Editora, (2011) Religioso e profano,Natal é trazer ao imaginário paletas de cores e sons, miscelâneas de cheiros e sabores, memória de emoções e afectos. E preparar espírito, corpo, casa e envolvência social, para qualquer coisa que vai chegar.Mesmo com a crise a austeridade e a dívida, reedita-se o ritual das compras da Festa, dos presentes de pastores e reis magos ao Menino na manjedoura, sabiamente apropriado e manipulado pela sociedade de consumo, este anoperdida a euforia de outras eras,devido à recessão económica.Aprender a moderação também será uma virtude nos tempos austeros que correm. A alegria natalícia de uma criança não precisará por certo de 70 presentes. No reino dos afectos, a opulência do ouro, do incenso, da mirra de outrora valerá tanto quanto a mais modesta prenda dos humildes pastores de hoje. Questões a refundar quanto tanto nos angustiamos com os desequilíbrios, desigualdades e fracturas nas relações sociais, nos níveis de poder de compra, condições essenciais de cidadania e dignidade humana. Que não se resolvem com solidariedades pontuais de um só dia, em que de repente nos damos conta dos sem-abrigo, dos marginalizados da sociedade, ignorados e encarados até com indiferença e incómodo ao longo dos restantes dias do ano. Tempos houve em que o marketing de Natal se ficava pela venda do senhor António e o seu cordel de brinquedos - cornetas, bonecas, piões, carrinhos, balões - pendurado no tecto, tesouros ao alcance de poucos, um íman que atraia a pequenada ao sair da escola. Para uma grande parte, nem valia a pena fazer cenas ou birras aos pais; esses truques resvalavam na sua indiferença e sabia-se que nesses tempos de parcos salários, sem cartões de crédito ou outras artimanhas consumistas, importante mesmo no Natal era a parte religiosa, comemorativa, familiar e gastronómica. E cartas ao Pai Natal, nem pensar: o conceito nem sequer existia no imaginário rural e lá em casa a literatura epistolar ficava-se pelas cartas da tia do Brasil,durante muito tempo reféns da solidária leitura da vizinha. E se se conseguisse uns sapatos novos que substituíssem o clo-clo da chuva nas solas esburacadas, tanto melhor. Natal era o Dia de Festa em casa do avô, brincar com os primos, a interminável bisca do pai e dos tios, a impaciênciada mãe e das tias em pôr a mesa da carne de vinho e alhos, a família junta. Estranhos temposestes. Serão pouco cristãos os sentimentos com que se olha para o dinheiro auferido pelos outros. Principalmente figuras públicas. As regalias de que disfrutam;as pensões de reforma acumuláveis com salários; os subsídios de reintegração e as subvenções vitalícias após exercício de cargos. Direitos adquiridos consagrados em lei, como se alega, inalienáveis para alguns, mas sem dúvida discutíveis num tempo em que se cortam salários e pensões de anónimos cidadãos ese caminha paulatinamente para a destruição do mítico Estado Social, para equilibrar as contas públicas e pagar a dívida externa. Não estamos felizes. Acabrunhados pelos números, com a dúvida e a incerteza como horizonte, mais do que a negatividade da inveja e da raiva, interpele-se as forças que estão a tomar de assalto princípios basilares do regime democrático. Vem a este propósito referir o livro "Falidos" em epígrafe, e que se lê num folego. Sob forma epistolar, faz uma denúnciada tragédia do nosso paradigma de vida de onde sobressai a ganância, o poder do dinheiro, do consumo, da especulação financeira e do forte domínio das armadilhas da banca,que nos tem levado, povos e países, a cairmos na tentação do endividamento compulsivo. Mas onde o autor anónimo sugere"quatro armas cidadãs e pacíficas para uma revolução mundial inevitável".Por sua vez, Frei Bento Domingues faz no prefácio,uma interessante reflexão sobre a função mediadora do dinheiro nas "trocas justas" entre as acções dos homens e a satisfação das suas necessidades básicas, a diferença entre o crédito ao consumo e o crédito ao investimento, e de como é "imoral e monstruoso" o "empréstimo com juros", pois não sendo uma troca de produções, ao "permitir acumular moeda em razão da distância temporal entre o momento do empréstimo e o da restituição", foge do circuito de legitimidadeda satisfação de "necessidades de todos pela complementaridade das profissões", aquilo que constitui de acordo com Aristóteles, "a base material da cidade".
Júlia Caré