Eles têm que saber que, por ser madeirense, ninguém me tente fazer sentir menos portuguesa! Já é lugar-comum ouvir dizer a alguns responsáveis políticos que os portugueses não se deparavam, há muito tempo, com os desafios e incertezas que hoje temos pela frente. Mas não será que, nesta simples formulação se encerra, desde logo, o equívoco maior de toda esta situação? É que o discurso político deve ser construído de desafios. Mas, seguramente, não pode, e não deve, ser construído de incertezas. Quem esteja atento às palavras dos responsáveis políticos com o propósito legítimo de nelas vislumbrar um caminho, fica desiludido. A única mensagem que encontra parece ser a dos funcionários de serviço a quererem mostrar serviço à custa seja de quem fôr. Neste caso de todos nós. Quando percebemos que, apesar da unanimidade já recolhida sobre o esforço que todos estamos dispostos a partilhar para assegurar o reequilíbrio das finanças públicas, o que nos oferecem como caminho futuro continua a ser uma interrogação, uma incerteza, aí as "coisas" complicam-se. E, legitimamente, começam a levantar-se dúvidas sobre a certeza da receita. É neste estado de espírito que os portugueses vão entrar no novo ano. Assustados, desconfiados, revoltados. Porque o que havíamos imaginado era que teríamos que dar um passo atrás para podermos, depois, dar dois passos em frente. O que, em termos práticos, significa que antecipando já, todos nós, o que significa a extensão do passo atrás, se torna absolutamente indispensável que nos digam como ficaremos depois, quando chegar a altura de dar dois passos à frente. Porque o empobrecimento e o convite à emigração não podem ser um fim em si mesmo. A não ser na lógica dos funcionários. Como madeirense que me orgulho de ser não tenho dúvidas que saberemos participar eficazmente no esforço de consolidação orçamental. Não tenho dúvidas que saberemos assumir as nossa responsabilidades. Mas desejo que, ao menos na Região, os políticos e não os funcionários, nos possam dizer quais são os caminhos do futuro. A não ser que os funcionários, orientados por propósitos mesquinhamente punitivos, tenham, entretanto, a tentação de nos estrangular... Mas esses funcionários precisam de saber que eu espero ser tratada de forma igualitária e não sentir na pele qualquer tipo de descriminação negativa pelo facto de ter nascido numa região ultra-periférica europeia. Eles têm que saber que, por ser madeirense, ninguém me tente fazer sentir menos portuguesa! A todos desejo um Ano Novo solidário, com força e esperança num futuro melhor.

Raquel Fraga, Historiadora de Arte