Aterrei desejosa de uma cantoria como a de há dois anos. Lembro-me de ensaiar numa adega, no final do sítio da Achada dos Judeus. A vizinhança estava impressionada com a amiga suíça que eu trouxera: cantava (português) como um rouxinol. De madrugada, lá entrámos na igreja. "Ai, como é lindo no colo da mãe, tão pobrezinho nasceu em Belém." Por causa da muita idade e do que ela traz, este ano o senhor padre Teixeira negou-se a celebrar missa às cinco da manhã. E o "nosso" acordeonista recusou-se a compactuar com uma Missa do Galo marcada para as dez e meia da noite. Não quis vestir a pele de um pastorinho que vai adorar o Menino quando o Menino ainda nem sequer nasceu. Quem o pode recriminar? Raios partam a falta de vocações. Nunca pensei dizer isto, mas, sim, raios partam. Está a minar os nossos costumes. Como é que se dá a volta a isto? Alguém quer criar um grupo no Facebook? Quando era miúda, despertava às quatro da manhã e corria para a lareira, em busca da prenda "do Menino". Andávamos um quilómetro até à Igreja dos Lameiros, a tentar escapar às bombas que os rapazes mais endiabrados atiravam para as pernas de quem ia para a missa. Depois cresci e comecei a fazer coisas de gente crescida. Naquela noite, gente crescida e não envelhecida não ia à cama. Depois do jantar, descia até à vila e reencontrava amigos de infância no Corvo, no Ferro Velho ou no Silvério. Às quatro e tal da manhã, subia até aos Lameiros. A festa acabava já dia, com tocadores rodeados de alegres paroquianos, em frente à Taberna Neves. No regresso a casa, era ver fumegar as casas de quem preparava um substancial pequeno-almoço - pão de batata-doce e carne de vinho d'alhos. Para mim, a noite de Natal era uma festa comunitária. O dia de Natal é que era uma festa de família. E São Vicente tinha o melhor Natal do mundo. E agora? É véspera de Natal e a minha irmã anda para ali, na cozinha, à volta de um peru de oito quilos com recheio de castanhas e bacon. Mesmo sem missa às cinco da manhã, logo à noite havemos de rever familiares e amigos.
Ana Cristina Pereira