Todos os dias tenho uma discussão com alguém, e ambas as partes tentam fazer ver o seu ponto de vista. Quando é que discutir ideias passa a ser um problema? Antes de mais, penso que argumentação deveria ser uma disciplina do ensino básico, porque continuo a ouvir argumentos do género "Bom! Então era isso...", ou, "sim, sim" acompanhado com um rebolar de olhos. Ou um dos meus preferidos que acaba em "...a tua avó!". Há um ponto em que a as discussões tornam-se pessoais, e defender o ponto de vista é uma questão de honra. E também o espírito evangelizador da questão fala mais alto, e falamos como se tivéssemos todas as respostas. Um messias que ninguém quer acreditar. De repente, na argumentação, usam-se estratégias de vários tipos, pequenos truques quando a troca de ideias já não funciona. Entra a manipulação, a distorção de factos, as referências, as estatísticas inventadas, o ridicularizar o outro, um dos meus preferidos, a ironia. E se nada mais funcionar, o grito. Realmente, se não estamos dispostos a ouvir, para que sequer começar? Eu próprio apanho-me a defender as minhas ideias como se a minha vida dependesse disso. E para que? Que ganho em por alguém a pensar como eu? Será que o nosso ego é tão grande que não suporta diferenças e sente que vai entrar em colapso? Já a história nos ensinou que evangelizar não é o caminho. Mas parece que não conhecemos outra maneira de discutir. E de repente um pistola apontada á cabeça parece ser tão bom argumento como outro qualquer.

António Ferraz, Colaborador AAUMa