Estamos em tempo de Natal, período que é tão característico entre nós que ganhou o nome de "A Festa". É, de facto, a festa por excelência, onde se celebra a vida abundante, a fecundidade vibrante e o brilho grandioso da humanidade que leva a divindade a vir ao nosso encontro. É Natal, é Deus que vem ao nosso encontro, que vem até nós que estamos igualmente abertos e disponíveis para o acolher. O Criador tomou um corpo, quis nascer, tornando-se homem. Deus fez-se visível: em Jesus Menino. Natal é a manifestação do "Verbo" de Deus que entra na nossa história e, ao mesmo tempo, é a proclamação do mistério da vida divina oferecida à humanidade. A graça do Natal é, portanto, a "companhia" de Deus com a nossa história e, além disso, é o nosso envolvimento na comunhão divina, através da pessoa do Verbo, encarnado nesse Menino. Natal é celebrar a proximidade do divino que se fez Deus connosco para que o humano pudesse ser divinizado, e a história se tornasse caminho e local de salvação. Assim, a verdadeira novidade do Cristianismo, celebrado no Natal, não reside em novas ideias, nem em noções abstractas, mas na acção imprevisível e, de algum modo, inesperada de Deus que ganha forma (encarna) em Jesus Cristo, presente em Belém. É aí que a verdade mais profunda pode ser contemplada: Deus é amor. A partir deste olhar, os cristãos vão encontrar o caminho do seu viver e amar, pois não podem receber o Verbo encarnado só de modo estático, mas ficam naturalmente envolvidos na dinâmica da sua doacção que os vai projectar para fora de si mesmos, uma abertura aos outros. Esta perspectiva não se reduz à expressão de um amor genérico e abstracto, mas exige o empenho prático aqui e agora. Trata-se, portanto, de ver com os olhos de Cristo o que permite dar aos outros muito mais do que só coisas externamente necessárias: posso dar-lhe o olhar de amor de que ele precisa. É que esse olhar de amor contém o essencial para o bem integral de cada ser humano. O Natal, ou seja, o nascimento de Jesus em Belém, não é só um facto que se possa relegar para o passado. Diante dele, se coloca toda a história humana: o nosso hoje e o futuro do mundo estão iluminados pela sua presença. Encontrando-se com esse Menino, cada homem descobre o mistério e a riqueza da sua própria vida. Esse acontecimento, essa experiência de encontro emerge como um novo critério para ler e avaliar a realidade e todos os projectos que pretendam tornar a vida de cada homem sempre mais humana. Deste modo, podemos pensar: não será que estamos demasiados ocupados com trivialidades em vez de nos concentramos realmente no essencial? De facto, já dizia o Principezinho, "o essencial é invisível aos olhos". Não será que valorizamos em demasia "as coisas", os objectos, o ter, o possuir e menosprezamos as pessoas, os valores, o ser e o viver? Não será que vivemos demasiado subjugados à ditadura do económico, do dinheiro, dos famosos mercados e esquecemos a dignidade de cada pessoa e de cada povo? Não tendo uma varinha de condão para mudar a vida, se cada um pudesse seguir a proposta do Natal, certamente daria felicidade a quem não sonha viver e faria surgir a alegria. Conscientes de que Deus, fazendo-se "carne" em Cristo, partilhou para sempre a aventura humana, temos confiança na possibilidade do homem transfigurar a sua humanidade, realizando-se como HUMANO. Um Santo Natal.

Marco Gomes