Pijama novo, o cabelo ainda molhado na almofada, a lutar contra o sono que não permitia desvendar mistérios.
A minha mãe ainda em azáfama pela casa. Havia sempre qualquer coisa que se atrasava, um qualquer esquecimento.
O meu pai a vigiar as searas e o seu orvalho, sinal de boa sorte, dizia, como que a desvendar esse segredo da água que chovia em cima do trigo abrigado dentro de casa.
Protegidos da realidade e embalados pelas histórias, lutávamos contra o sono que em breve chegaria para garantir que ainda não seria naquela noite que a infância se iria esvair, talvez pela chaminé em que acreditávamos como coisa possível.
Lembro-me de ficar a ver o reflexo colorido da gambiarra, intermitente, certa, compassada, ao ritmo do coração.
A manhã teria o compasso certo dos nossos passos pela casa, o calor das mãos ainda pequenas, o cheiro a chocolate quente e o sorriso do meu pai.
Tudo teria a medida certa dos dias. 24 horas grandes, sem autocarros na estrada e com o silêncio a deixar ouvir as nossas gargalhadas e o ruído dos carros telecomandados contra os móveis da sala.
Os olhos pintados de verde do meu irmão, a espreitar a vida que nos fazia crescer contra a nossa vontade.
Chegámos aqui, a este Natal que será sempre mais da memória do que do presente. E será por essa memória que voltaremos ao local da felicidade. Mesmo que só em sonhos, ainda a sentir o cabelo molhado contra a almofada. Quase a ouvir os passos da minha mãe e o meu pai a sorrir para a nossa infância a subir pela chaminé.