Este é assumidamente um artigo diferente e lamechas. Em dia de Festa não é minha intenção aborrecer os Leitores com as habituais observações críticas que povoam este espaço ao longo de todo o ano. Hoje é dia de véspera de Festa, da Família, das Crianças, da Amizade e de outros valores que importa lembrar e enaltecer. Depois da euforia dos últimos dias, quando parecia que o mundo ia acabar e que era preciso abastecer a despensa para os próximos seis meses, hoje é dia de merecida calmaria. De abrir presentes, de experimentar o cacau quente, a canja, de saborear a carne de vinho e alhos e, este ano, com a inovação do pão de queijo, de trocar umas palavras mais simpáticas com os vizinhos. Amanhã é dia de visitar a família. O dia é pequeno, é verdade, mas dá para tudo. Confesso que de todos os elementos mais directamente associados à quadra natalícia, o que me toca mais é mesmo o da família. Do núcleo mais restrito dos quatro lá de casa, até ao conjunto mais vasto de familiares esquecidos que se fazem lembrar neste dias. Neste campo sou um privilegiado, admito-o com orgulho. Porque venho de uma família grande, daquelas famílias numerosas a sério, não das modernas que se dizem numerosas com apenas pai, mãe e três filhos. Em casa dos meus pais nasceram duas mãos cheias de filhos. Seis rapazes e quatro raparigas. Uma morreu bebé e uma está emigrada, mas sempre connosco. O resto, se Deus quiser, encontra-se este Dia de Festa, ao fim da tarde, na casa dos Pais como sempre desde que me lembro. É dos poucos dias do ano em que estamos todos. E todos, neste caso, já representa muita gente. Pai, Mãe, seis filhos e duas filhas. Seis noras e dois genros. E, tantos netos que os tenho de voltar a contar por ordem de precedência dos pais. Ora, então são três, mais três, mais um, mais dois, mais uma, mais duas, mais um, mais dois, mais uma: 16 netos. A que começam a juntar-se namoradas e namorados. Tudo junto numa casa modesta e simpática de um sítio recôndito e frio é, para mim, a verdadeira essência do Natal. Tudo isto ganha às prendas, às luzes e a todo o consumismo que somos alegremente arrastados por estes dias. E segunda-feira há mais. A Primeira Oitava é dia da casa da Sogra, onde se reúne mais uma família numerosa, novamente das antigas: uma Mãe, seis filhas e um filho; seis genros e uma nora. E outra vez muitos netos: um, mais dois, mais dois, mais três, mais dois e mais dois: 14 netos. A que se juntam namorados e namoradas. Nem todos estarão presentes, mas advinha-se casa cheia outra vez. Estes encontros alargados voltam a acontecer por outras ocasiões ao longo do ano, mas não é a mesma coisa. Porque nem sempre é possível reunir toda a gente e porque aquilo que se chama o espírito do Natal só se vive nesta quadra. Neste, como noutros anos, os desejos de um Feliz Natal parecem desprovidos de conteúdo, mas não o são. Podem ser repetidos, mas são cheios de boas intenções. Eu avisei que este era um artigo assumidamente diferente e lamechas... Feliz Natal!