João Miguel Santos As cabras fazem parte do ecossistema da Deserta Grande desde há mais de 500 anos, sem que a, desde o início, pouca vida vegetal aí presente tenha alguma vez se extinguido. E, além disso, esses heróicos animais, que se adaptaram evolutivamente a sobreviver em condições extremíssimas, são as únicas descendentes actuais da extinta cabra do Gerês. Ao ter conhecimento, através do D.N., do que considero um violento massacre de animais ocorrido nessa pequena ilha, perpetrado, sem qualquer compaixão e respeito biocêntricos pela vida individual desses seres vivos sencientes, com sistema nervoso central e consequente psiquismo, vieram-me ao espírito estas breves reflexões: -Estão muito iludidos, os que imaginam que as Desertas voltarão um dia a ter o coberto vegetal que teriam tido à milénios, (se alguma vez o tiveram, pois já os cronistas do século XV aferiam que, antes da introdução das cabras, as «Desertas» eram áridas e quase estéreis). Mesmo que exterminem todas as cabras, pela sua história natural, condições extremas e com o aquecimento global tal jamais acontecerá. -Violentas acções de «purificação» ecocentrista, como a verificada na Deserta Grande, configuram o que alguns pensadores da Ética Ambiental (Tom Regan, Paul Taylor…) qualificam de Ecofascismo: a intenção calculista humanocêntrica de pretender restaurar míticas «purezas intocadas» de ecossistemas entendidos como«todos» abstractos, sem consideração ética pelas vidas concretas individuais dos seres vivos sencientes que neles subsistem e vivificam. -São os indivíduos concretos que são sujeitos de uma vida; não os ecossistemas, cadeias alimentares e espécies só por si mesmas. Sem compaixão concreta e consideração ética pelos sujeitos de uma vida não poderá haver verdadeiros amantes da Natureza viva.