Como alguém me referia ainda esta semana, tudo não passa de escolhas. Escolhas de pessoas, de linhas de pensamento, prioridades, objectivos, que se podem, por via dos instrumentos operacionais, alinhar estrategicamente, tomando em consideração o que somos, o que sabemos fazer e o que a envolvente nos proporciona ou condiciona. O resto é história rotineira, percurso mais ou menos linear, de vez em quando coroado de momentos de glória, sensações e experiências de grande satisfação colectiva, que nos fazem sonhar e crescer, ou então as ditas crises, mais escuras, cenários dramáticos que revisitamos enquanto colectivo na nossa caminhada nacional. Contudo, nesses momentos de menor capacidade, historicamente falando, apesar do sofrimento, das carências ou mesmo do quase desespero colectivo, sempre fomos sabendo resistir, ficando, lutando, trabalhando, ou procurando, lá fora, o que cá dentro faz falta. Mas, nunca fomos empurrados. Nunca, até à data, algum português havia recebido uma "guia de marcha" tão brejeira e leviana como a que o nosso primeiro acaba de nos dedicar. Deveria ser proibido a qualquer primeiro ministro afirmar que a saída é a melhor maneira de escapar ao seu governo. E ainda por cima escolheu a classe docente como o piloto para este êxodo. A escolha do primeiro ministro português é mandar os educadores embora, esquecendo que são eles os que formam os portugueses, os que, afinal, asseguram que esta coisa de ser lusitano se vá mantendo, apesar de, de vez em quando, produzir algumas anormalidades que se borrifam para a memoria e identidade. Instalou-se, ao mais alto nível a falta de cultura institucional, a contabilidade primária que trata de pessoas como mercadoria que se transacciona em saldos. O investimento feito pelo Estado e pelas famílias, na formação de professores acaba por ser entendido como um fardo cujo alivio é atingido pela sugestão de que saiam. E, em vez de se ouvir que é com os professores e as famílias que se vai transformar este país sustentável, pela formação, competência e trabalho, apanhamos com a sugestão de que o melhor é colocar-se a léguas. É, como acima se diz, uma questão de escolha e, nós escolhemos, para nos governar, num tempo em que se necessita de arte e engenho, alguém que se dá a este tipo de proposta. É claro que muitos de nós, durante gerações e gerações, soubemos sair e voltar, abrir caminhos, procurar alternativas mas, nunca perdemos a identidade nem a memória. Mas nunca fomos corridos. É tempo de parar, pensar e escolher, novos caminhos, novos modos operativos. A dúvida é se também teremos que escolher novo país, se é que nos deixam, sabendo que alguém tem de ficar a sustentar estas patetices. O que nos vale é que haverá a possibilidade de escolha, em breve.
António Domingos Abreu, Biólogo