William of Ockham, padre franciscano e filósofo inglês, nasceu em 1288 e faleceu em 1348, vítima da peste negra. Pensador activo, participou em muitas das querelas intelectuais do seu tempo. Hoje, lembramo-nos dele sobretudo por um princípio que nos deixou e que conhecemos sob o nome de navalha de Ockham. Segundo este princípio, se em tudo o mais forem iguais, de entre as diversas explicações de um fenómeno, a mais simples é a melhor. Como sempre, é necessária cautela na utilização deste princípio, ou a fúria dos deuses seria sempre uma séria candidata a explicação adoptada para qualquer fenómeno. Assim, a aplicação do princípio apenas se faz após uma primeira selecção, em que excluímos as explicações que, por uma ou outra razão, nos parecem ser inaceitáveis. A tendência ocidental, pelo menos desde os primeiros sucessos da revolução científica, tem sido de uma grande severidade neste primeiro passo, excluindo-se toda e qualquer explicação que não tenha sido construída com base nos princípios do método científico. Esta atitude envolve, ela própria, um acto de fé (na ciência) que este último século se tem encarregue de pôr em causa das mais diversas formas. Desde o reconhecimento dos limites do determinismo, à impossibilidade de sabermos se a matemática é um edifício consistente (acreditamos que sim), ou ao facto de sabermos de sistemas de tal forma condicionados pelos erros de medida que nos é impossível prever seja o que for com eles, o século XX foi pródigo em sinalizar os limites que deveríamos impor-nos. Mais recentemente, investigações sobre a inteligência vieram chamar a atenção para a importância do aspecto emocional nos processos de decisão humana. Roger Penrose, um dos grandes físicos teóricos do nosso tempo, chamou, há bem poucos anos (1), a nossa atenção para o inultrapassável papel da intuição, mesmo na descoberta científica. Extrapolando um pouco, a redução das explicações apenas àquelas que são de uma absoluta racionalidade poderá, em muitas circunstâncias, deitar fora a explicação correcta. Reduzir os nossos processos de decisão colectiva, por exemplo, a esquemas exclusivamente racionais, baseados em modelos científicos que excluam aspectos como a confiança e a crença ou o papel da intuição, pode não ser a melhor escolha. Sendo verdade que o mundo globalizado exige um conhecimento cada vez mais rigoroso de uma quantidade enorme de dados e indicadores de todos os tipos, pensar que poderemos, no futuro, basear todas as nossas decisões em procedimentos frios, científicos e técnicos é, muito provavelmente, um erro, pela tentação que tais métodos têm para excluir de consideração esses aspectos emocionais (que manifestamente têm tido uma influência enorme na evolução da crise actual). Pela sua formação, não será, talvez, legítimo esperar que os tecnocratas alguma vez sejam capazes de contar com este tipo de aspectos. É precisamente por isso que o papel dos políticos é imprescindível. E é por ser imprescindível este papel que se torna imperativo que a classe política se credibilize. Com urgência. (1) Num livro magnífico: "The Emperor's New Mind" (A Nova Mente do Imperador)
Castanheira da Costa - Reitor da UMa