Gil Canha Todos os anos visito as ilhas Desertas. Este ano, verifiquei alarmado que havia uma visível e preocupante devastação do coberto vegetal na Deserta Grande, sendo mesmo assustador a dimensão dos estragos na Fajã Grande e em redor da casa de apoio dos vigilantes desta reserva natural. A causa desta calamidade deve-se ao excessivo número de cabras, que por não terem predadores naturais, reproduzem-se a um ritmo verdadeiramente alucinante. Verificando este facto, os responsáveis do Parque Natural resolveram, e bem, promover o abate destes animais. No entanto, a maneira como foi realizada esta operação originou algumas criticas nas páginas deste jornal, que na minha opinião, poderiam ser evitadas. Em muitos parques naturais, nos Estados Unidos e Canadá, introduziram-se lobos para limitar e equilibrar o número de veados. Nos parques onde não foram possíveis introduzir esses predadores naturais, os administradores optaram por abrir a caça controlada ao veado, exigindo além das licenças habituais de caça e respectivo pagamento, a frequência de um pequeno curso, onde os caçadores recebem formação sobre as espécies animais e vegetais, e também os cuidados a ter nas suas deslocações no interior desses mesmos parques. E assim, ninguém vê carcaças abatidas a apodrecer e a estorricar a céu aberto e tudo é aproveitado. Na Deserta Grande o modelo poderia ser o mesmo e ficariam todos a ganhar; o parque auferia de uma importante fonte de receita suplementar pelas licenças de caça emitidas; as cabras eram abatidas de uma forma mais digna, segundo os códigos da actividade cinegética, e a saborosa carne desses animais aproveitada.