Agora que o ano está prestes a terminar e ninguém pode mais duvidar ou refutar o baque que se encontra em fase adiantada de manifestação, valerá a pena insistir na dependência que mantemos face à paisagem que nos rodeia, ou não fosse esta, o habitat em que temos vivido e vamos ter de encontrar soluções para (sobre)viver nos próximos anos. A relação entre uma UE instável e em risco de desmoronamento, um país que agoniza para subsistir como tal e uma região insular estrangulada - como que atada num "nó górdio", tecido no avolumar das responsabilidades financeiras, mas também fruto de ajustamentos político-partidários pouco prováveis - só pode ser concebida à luz de uma perspetiva sistémica, cuja eventual recusa não é propriamente uma hipótese equacionável. Por norma, prestamos pouca atenção à reciprocidade, à interdependência e à multicausalidade entre subsistemas (UE-Portugal-Madeira), mas na prática, estes, mantêm relações cruzadas, ou seja, comportam significativos nexos entre si; e como tal, é inconcebível compreendê-los de forma isolada, tal como é impossível neste momento sustentar planos de saneamento para a Madeira, exclusivamente, alicerçados em mecanismos endógenos. No que diz respeito ao plano da realidade que é particularmente próximo - a situação da Madeira no contexto de agonia nacional e de profunda incerteza europeia - parece-me que face às evidências que se adensam, mesmo aos olhos dos mais dogmáticos ou fantasiosos, quaisquer tentativas para desfazer ou aliviar o "nó górdio" em que a região se envolveu, implicarão sacrifícios atrozes inevitáveis aos portugueses da Madeira, mas a grande questão que subsiste é -a meu ver - de que servirão esses sacrifícios atrozes sem a correspondente alteração do "quadro mental e comportamental" de quem os representa e governa? Algumas das respostas que se perfilam para esta questão, perturbam quem pensa e se preocupa com as consequências para além da sua geração; e sabe que, por exemplo, o rendimento em baixa, o desemprego e os impostos (como o IMI, o IRS, o IRC e o IVA) em alta vão perdurar nos próximos anos, num contexto coincidente com a deterioração da capacidade de resposta de setores vitais, como o do turismo ou dos serviços financeiros (do CINM), isto sem falar na razia que varre o pequeno retalho/comércio ou na "pedra amarrada à perna" que é a manutenção e a viabilização de inúmeras infraestruturas, que após a solidificação da "massa cinzenta do betão", carecem, agora, mais do que nunca, da "massa cinzenta do córtex" para se manterem utilizáveis, condição sem a qual nem sequer serão integráveis no circuito social e económico. Por outro lado, a convergência dos fatores (em alusão) surge na pior altura, quando a UE está a lidar com as consequências provenientes do primado das sociedades centradas na ideia de mercados autorregulados, e com estes, por sua vez, a dominarem as relações e a representarem a submissão do plano político ao plano da economia financeira. Como se não fosse complexidade suficiente, em simultâneo, temos o país refém da intervenção externa, sem a qual não teria sequer meios líquidos para assegurar a sua própria existência. De facto, é num contexto grotesco, com a região sufocada e ao que tudo indica num estado de insolvência, que qualquer tentativa para desfazer o "nó górdio" tem de se desenrolar, carecendo, pois, para o efeito, necessariamente, de um país que subsista e de uma UE que persista, uma vez que a alteração substancial deste sistema anulará, não tenhamos dúvidas, a expectativa de inversão da tendência em curso e, assim, o risco de ter de lidar - a curto prazo - com manifestações típicas dos cenários de descontrolo e impulsão social será bem mais do que uma mera probabilidade. Em suma, sem a adequada inserção da realidade regional na realidade nacional e sem a reabilitação do país no seio da UE - e da continuidade desta em termos amigáveis às regiões ultraperiféricas - a Madeira dificilmente retomará a senda dos desafios que tem pela frente e que na verdade continuam a ser decorrentes da perpetuação das suas condições estruturais (específicas das regiões de objetivo 1). Dito isto, desatar o "nó górdio" implicará garantir as condições que permitam prosseguir a promoção do desenvolvimento socioeconómico da Madeira, por norma baralhado e confundido com o efeito de taxas de crescimento económico, que no presente contexto são pouco mais do que respeitáveis indicadores do período "pré-nó górdio". * A lenda do "nó górdio" refere-se à existência de um nó difícil de desatar, embora possa também significar a resolução eficiente de um problema complexo.

Ricardo Fabrício