Se a aula (ou o treino, pois tanto se educa na escola como no clube) for utilizada essencialmente para transmitir conhecimentos, então é legitimo perguntar: não será mais rentável (nomeadamente em termos financeiros), por exemplo, o aluno aceder a essa informação através de um CD que visionará no computador quando e onde quiser, as vezes que for preciso? Alguns burocratas, sem visão, pensarão mas "então pode ser muito mais barato" …e esfregam as mãos. Ora aqui podemos seguir dois caminhos, completamente diferentes, quer na trajectória quer, o que é muito mais importante, nos objectivos visados, ou seja: 1) procuramos fazer o mesmo só que mais barato; 2) procuramos os recursos (eventualmente o mesmo capital) disponíveis para ir tão longe quanto possível. A primeira destas hipóteses contesta-se, por absurdo, até na lógica deles - será que aceitam que não compram um carro porque fazem o mesmo indo a pé, não andam de avião porque podem ir para Lisboa a nado, usam só umas T-shirts porque fazem o mesmo do que um fatito todo janota? Ou economia e miserabilismo são só para os outros? Se aceitam a 2ª hipótese precisam de fazer a análise da relação custos/benefícios, o que implica na opção "docente ou computador para transmitir conhecimento" uma nítida preferência pelo computador. Mas o docente pode ser "utilizado" de uma forma muito mais rentável a produzir conhecimento e, sobretudo, a ajudar os alunos a aprender, isto é a digerir o conhecimento adquirido (depois de colherem o conhecimento de um outro modo). Utilizar os docentes para repetirem não sei quantas vezes a "mesma aula" é um desperdício. As aulas (e os treinos) devem ser "visitas guiadas" onde a curiosidade dos alunos é conduzida, onde o aluno desenvolve a capacidade de interpretar, de levantar hipóteses, de responder e de tentar fazer, de ter sentido critico… no fundo uma aula exige muito trabalho, pois é um local de reflexão, de debate e discussão, de experimentação … Tal como afirmámos no artigo anterior "É necessário um novo conceito de escola, de aula e de treino". É preciso também que quem faz a gestão perceba que gerir não é dar ordens mas sim saber escolher e implementar as melhores estratégias para obter as soluções escolhidas. São necessárias grandes mudanças no processo pedagógico (na escola e no clube), não é mais possível continuar simplesmente a "mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma".

Hélder Lopes - Professor universitário