
Nada pode explicar a aprovação do exuberante ‘jackpot’ de 5,3 milhões de euros para financiar os partidos representados na Assembleia Legislativa da Madeira sem que saia dali beliscado um cêntimo. Ninguém consegue compreender que estatuto excepcional ostentam os sete partidos ali representados para que não sintam um pingo do suor pelo aperto da ‘troika’ num ano repleto de medidas de austeridade e de sacrifícios – mantidas cá no burgo tão ou mais ocultas do que a própria dívida – que só nos chegam pela voz do primeiro-ministro. Enquanto o governo de Jardim se finge surdo e mudo, metendo a pála nos olhos seguindo ‘sempre prà frente’ sem saber bem para onde, negando impostos e cortes na despesa enquanto o buraco de 6,3 mil milhões de euros engorda dois milhões em quatro meses, deixando a Madeira “sufocada pelo peso da dívida”, Pedro Passos Coelho vai dizendo que os madeirenses vão sofrer mais com a austeridade, porque sendo a dívida de cá colossal, o aumento da carga fiscal é inevitável.
É por isso que, neste quadro de elevada responsabilidade da gestão do bem colectivo, vir o partido da maioria aprovar para eles próprios benesses que representam um roubo ao Orçamento e mais um contributo ao rombo das contas públicas, num exercício cobarde de auto-exclusão dos sacrifícios é, se não um crime, uma imoralidade sem escala. Os mesmos deputados que, não tardará muito, e começarão a impor sem mácula e hipocritamente ao povo, através do órgão legislador para o qual foram mandatados, sacrifícios que recusaram fazer. É um atentado ao mais elementar sentido de justiça social que o órgão fiscalizador do poder executivo, eleito para defender os interesses dos madeirenses entenda que é prioritário manter os cofres dos partidos atestados, abdicando do dever de dar o exemplo, e não admitindo sequer um corte de 30% como foi sugerido por uma bancada parlamentar, quando todos nós somos forçados a ceder às contingências da austeridade, entregando já 50% do vencimento do 13.º mês acima do salário mínimo e quando 30% é o corte no subsídio de desemprego previsto para os próximos quatro anos.
Tal como muitas famílias, esta quadra optei por estratégias de poupança como aquela do ‘amigo secreto’ – os nomes das pessoas escritas em papelinhos; metidos dentro de um saco e eleitos por sorteio. O objectivo é reduzir os encargos e manter a celebração, bastando para isso uma prenda por pessoa, com um tecto máximo fixado: 30 euros. As crianças são a excepção, porque não há Natal sem crianças. Mas há Natal sem partidos. Ou deveria haver. Não estava escrito em papelinho nenhum, mas lá saiu ontem na rifa estes sete ‘amigos secretos’ que, com maior ou menor birra, lá se fizeram passar por crianças, enganando-nos a todos e pondo-nos a pagar esta prenda cara de 5,3 milhões de euros. Cara e envenenada, porque quem escolhe são eles. Se julgarmos que ao menos estamos a contribuir para o funcionamento da democracia representativa estamos bem enganados. Não faltam advertências de instâncias arbitrais como o Tribunal de Contas, sobre a má execução dos dinheiros, canalizados não para a acção parlamentar mas para as campanhas eleitorais dos partidos, para pagar propaganda e lixo que vai servindo para cegar o povo até ao próximo Natal, certos de que até lá, teremos outras prendas no sapatinho, propostas pelos mesmos legisladores de jackpots.
Depois deste aperto da ‘troika’ com mais IVA sobre o gás e a electricidade, a partir de amanhã deixaremos de ter acesso aos medicamentos comparticipados nas farmácias porque o Governo Regional deve 77 milhões de euros em atraso há mais de dois anos. No sapatinho, teremos a subtracção de dois salários em 2012, passagens para transporte 15% mais caras e bens consumíveis com IVA em valores históricos que mandam a insularidade às malvas, em taxas máxima a 20 ou 23%. Se não houver portagens, podemos contar com o aumento do Imposto de Circulação que é assim, distribuindo os males pelas aldeias, que os governos dissipam crispações. Depois do Natal, teremos um buraco porventura superior a 7 mil milhões de euros para tapar com juros da dívida que nos veremos gregos para cobrir e, se a vergonha entretanto não morrer, no sapatinho (certamente roto), haverá espaço para um novo 'jackpot' para aqueles 'pastorinhos'.