João Andrade Esta podia ser uma carta aberta ao novel Secretário Regional da Educação - SRE. O meu caro colega, e agora secretário regional, expressou até ao momento duas grandes ideias sobre o que pretende para o sistema de ensino na Região, e respectivas escolas. Disse há dias que pretende a estabilidade e autoridade nas escolas, que eu concordo na sua plenitude. Também disse que está convencido que as escolas da região possuem meios para serem autónomas e suficientes, e que, como tal, devem desenvolver actividades em prol dos alunos. Bem, com alguma reserva, e no plano dos princípios, devo dizer que concordo. Todavia, assegurando o contraditório, devo referir uma leitora do DN electrónico, que dizia sentir-se desiludida pelo facto de o mesmo, na condição de sindicalista, ter visitado diversas escolas e aí ter tomado conhecimento da escassez de recursos (materiais e financeiros) de que as escolas padecem. Mas se eu concordo com o que o SRE expressou, também concordo com alguns adágios populares. E neste caso, não posso deixar de lembrar um, que é particularmente interessante: santos da casa não fazem milagres. Para que este provérbio não venha a encaixar, que nem uma luva, no governante em apreço, importa que as políticas a implementar para a área de educação sofram uma inflexão para melhor. É muito frequente lermos e ouvirmos opiniões sobre o facto de os professores "somente" trabalharem 22 horas por semana. Todavia, e reproduzindo um e-mail que recebi há dias, essas mesmas pessoas esquecem-se que para além dessas "escassas", mas duras e esgotantes horas, estão muitas mais de preparação de aulas, correcção de trabalhos e testes, elaboração de planificações, grelhas de observação para avaliação, actas, relatórios, etc., havendo ainda que referir as inúmeras reuniões que ocorrem ao longo dos períodos lectivos que, por incrível que pareça ser, não são contabilizadas como trabalho efectivamente prestado. E, como se isto não fosse demasiado, os professores, dada a escassez de recursos nas escolas, que cada vez mais são evidentes, são "levados" a financiar (pagando do seu bolso) muitos dos procedimentos administrativos da responsabilidade da escola. Trabalham muitas horas em casa, cujas despesas (electricidade, água, computador, papel, impressora, tinteiros, esferográficas, lápis, borracha, etc.) são integralmente suportadas por eles. Nunca as escolas alguma vez orçamentaram a aquisição de material para o trabalho docente, ao contrário do que acontece, e bem, para os restantes funcionários da escola. Na escola chegam a pagar fotocópias para entregar aos alunos e utilizam o próprio telemóvel para contactarem os encarregados de educação. E depois, há que referir ainda os casos em que, em representação da instituição escola, os docentes directores de turma são convidados (convocados) a deslocarem-se aos Tribunais de menores e às Comissões de protecção de menores, para tratarem de assuntos dos alunos seguidos por aquelas entidades, casos que surgem cada vez mais e em maior número, e fazem-no a expensas próprias (viatura, combustível e estacionamento). Alguém conhece alguma outra carreira profissional, alguma empresa ou serviço público, onde ocorre este tipo de situações, relativas ao financiamento pessoal do sistema/instituição onde trabalham. E ainda existe a ideia de que os docentes ganham muito bem. Afinal, soube-se há dias, ganham em média menos de metade do que um qualquer jornalista da RTP. (continua)