" Andamos a estudar para quê?" A pergunta era feita pelo meu colega repórter fotográfico Manuel Nicolau. Usava-a sempre que sentia perplexidade ou simplesmente descontentamento pelo andar da carruagem. Homem que acreditava que uma imagem vale mais do que mil palavras, mas que recorria ao seu chavão predilecto quando queria mesmo marcar uma posição. Nessa altura, lá saía o certeiro "Andamos a estudar para quê?", que toda a redacção aprendeu a repetir por graça, mas também porque dá sempre jeito a crítica velada em tom de brincadeira. Ali entre a verdade e a piada.
Esta semana lembrei-me duas vezes do Manuel Nicolau. A primeira quando ouvi José Sócrates, comodamente sentado num sofá, afirmar que querer pagar as dívidas dos países é uma ideia de crianças. As dívidas, disse, são para gerir e não para pagar. "Foi assim que eu estudei", acrescentou ainda o ex-primeiro-ministro deste Portugal á beira do abismo e afundado em dívidas que não são brincadeira de crianças.
O homem de quem se diz ter tirado o curso de engenheiro ao domingo, parece que realmente saltou algumas aulas, o que não é dramático e até seria academicamente salutar, não fosse depois o personagem responsável pelo governo de um país e pelo destino de um povo. O mesmo povo que agora o vê a fazer palestras e a estudar filosofia em Paris, nesse lugar confortável onde não tem de se preocupar com ninharias como dívidas soberanas e os seus efeitos na vida real.
Mas na mesma universidade onde Sócrates estudou, também estudaram outros. Andamos a estudar para quê? Aqui no 'burgo' há quem nos queira convencer de que o verdadeiro problema desta ilha não foi, nem é a governação destrambelhada e irresponsável que nos trouxe até aqui. Isso são brincadeiras de crianças. Aqui as dívidas também não se pagam e os verdadeiros responsáveis, como se sabe, são os da oposição "mais fraca do que nunca".
São eles afinal os que devem às empresas que lutam por sobreviver, são eles que, dado o seu desleixo financeiro, reduziram as contas regionais a um longo rol de mercearia que não aguenta mais fiados e que até coloca em causa a comparticipação nos medicamentos.
Andamos a estudar para quê? Perguntaria o Manuel Nicolau e eu assino por baixo. Isto na certeza de que não andamos a estudar para governar... isso nota-se e nem é preciso estudar muito..