O segundo de cordada, Rui Dantas Na passada semana faleceu o mais notável de todos os escaladores madeirenses. Aos 92 anos, partiu para a sua última "via" Rui Martírio Gomes da Silva. Como ocorreu ao longo de muitos anos, partiu em "solitária". Talvez alguns destes termos não digam nada à maioria das pessoas, mas para ele eram palavras correntes na linguagem de montanheiro. Possuidor de uma notável técnica, com uma vontade indomável de aventureiro, o Dr. Rui Silva, como era conhecido, conquistou todos os principais cumes da cordilheira central da ilha da Madeira. Abriu vias nas encostas mais agrestes e difíceis do nosso maciço montanhoso, vias essas que ainda hoje fazem as delícias de uns poucos que com ele partilham a paixão pelas montanhas. Tive o prazer de com ele escalar um bom par de anos nas décadas de oitenta e noventa, e o privilégio de ele me ter concedido a oportunidade de ser o seu segundo de cordada. Isto foi para mim uma honra em primeiro lugar, e, em segundo, a oportunidade de partilhar momentos intensos da vida que criaram uma amizade única e forte que só os escaladores conhecem. Tive a oportunidade, de unidos por uma corda, partilhar com ele percursos difíceis e verticais, e de conhecer um ser humano único, singular e diferente, que só as montanhas são capazes de forjar. A grandeza deste homem vai muito para além da escalada, pois era possuidor de uma cultura geral fantástica, o que ajudava a complementar as nossas tardes desportivas com longas e agradáveis conversas que iam muito para além das montanhas. Muitas dessas conversas rodavam em torno da nossa diferença de idades, e da sua ideia dos "ciclos cósmicos" que nos haviam criado um diferencial de 40 anos. Hoje (talvez não na altura) concordo com o seu pensamento e aguardo que tenha toda a razão, na esperança de que um novo "ciclo cósmico" nos dê a oportunidade de partilharmos de novo "pedaços da face boa da vida". A sua capacidade técnica não nascia do nada, era reflexo directo do seu trabalho, dedicação, exigência e obsessão pela perfeição. Quantas vezes tive que repetir algumas passagens de montanha, passes em vias difíceis, pois, fazendo valer a minha condição física, descurava nos atributos técnicos. Aí era tido e sabido que ouvia aquela recomendação natural de um mestre para o seu discípulo: "Não, não, volte atrás e faça como deve ser, você é capaz…". Com esta sabedoria traduzida em pedagogia ao longo de toda a sua vida, foi das pessoas que mais influenciou a minha formação, não só como escalador mas também como pessoa. Este notável escalador de que vos falo, não se limitou à Madeira, passeou a sua classe de montanheiro pela Europa e é hoje referência nacional, sendo referido em alguns livros da especialidade. O património que foi capaz de construir nas montanhas madeirenses é único, inigualável e eterno, resta-me agradecer-lhe pela oportunidade que me deu, e pela simplicidade como soube talhar-me como montanheiro e como homem. A notícia da partida para esta escalada final gelou-me as emoções, mas tal como tanta vez dizia, "… prefiro o frio ao calor, o frio tempera-me os sentidos". Decidiu partir para a maior escalada da vida no Inverno, e como sei que o frio lhe tempera os sentidos, tenho a certeza que se transcenderá rumo à Transcendência. Muito obrigado por tudo o que humildemente partilhaste comigo, estarei atento para as oportunidades que se nos deparem no próximo "ciclo cósmico"... Gostava de ter a oportunidade e sabedoria que tiveste para escolher o melhor momento para partir na última "escalada". Não sei se saberei tirar tanto partido da natureza como só tu sabias, mas ao menos espero ter-te à minha espera no primeiro relé dessa via. Até já… PS: "cordada" - Significa o conjunto de escaladores ligados à mesma corda. Normalmente dois, garantindo alternadamente a segurança do parceiro de escalada quando este progride. Chamamos "primeiro de cordada ao primeiro escalador e segundo de cordada ao segundo escalador. "Relé" - Ponto de reunião onde os escaladores esperam uns pelos outros ao longo da via. "Via" - Chama-se via à rota escolhida pelos escaladores para trepar, é o caminho que seguimos durante a escalada. "Solitária" - Tipo de escalada em que o escalador trepa sozinho, sem parceiro, entregue a si próprio.