Querido Pai Natal, como sabe, trabalho e resido na metrópole há uns aninhos, mas jamais reneguei as minhas origens. E se há época que marca um madeirense de gema, nascido e criado no centro do Funchal, é esta. Os mais velhos ainda a designam por "a festa". E a "festa", a nossa, Pai Natal, é um conjunto de acontecimentos que só a Madeira sabe e consegue oferecer. Quero que saiba que pôr um ilhéu a comer bacalhau com couves (ou grelos, como este pessoal de cá gosta de dizer) na consoada é um sacrifício colossal - juro que esta não é piada política. Por mais poder de adaptação que tenha não consigo fazer tamanho esforço. Que me renda aos sonhos, às filhoses e ao bolo-rei é outra conversa. Agora, recuso-me terminantemente a comer o que na minha terra não tem estatuto para presidir ou sequer estar presente na mesa natalícia. O que eu gostava mesmo, Pai Natal, era de ir até à Madeira, passear pelas ruas da minha cidade, contemplar as luzes e o anfiteatro, assistir aos concertos nas igrejas, visitar os presépios espalhados pela ilha e estar de olhos fixos na Montanha, para as 12 badaladas do novo ano. Gostaria de poder visitar a minha família, comer sandes de carne vinho e alhos, o bolo-de-mel, as broas que a minha mãe costuma amassar e beber um "tintantum". Ah, e já agora poder ler tranquilamente este diário no "Golden Gate", deliciar-me com uma queijada na "Penha D'Águia", para não falar no bolo-do-caco e do caseiro bolo-de-família que costuma marcar presença nos pequenos-almoços. Não perderei uma linha a falar das tradições natalícias da "capital do reino". Não me identifico com elas. Pronto. Julgo que o meu desejo de querer estar na "minha terra", que por sinal é um destino turístico por excelência, é natural. Só que este é um anseio que, com grande pena minha, não se vai concretizar, Pai Natal. Talvez desconheça, por viajar de trenó, mas os voos para a Madeira estão, nesta quadra, pelo preço da morte. Proibitivos, mesmo. Acredite que é mais barato ir a Estocolmo, Berlim, Paris, Roma, Barcelona e até Veneza, que ir ao Funchal. Nas minhas pesquisas pela internet não encontrei a Lapónia, mas não me escandalizava que fosse mais acessível visitar a sua terra que a minha. Lá perto, a Helsínquia, sei que a TAP voa mais barato. Não sei se consegue explicar aos responsáveis da transportadora aérea portuguesa e ao meu governo que tinha mesmo muita vontade de gastar algum dinheiro nos bares e restaurantes da região que me viu nascer e crescer, e de trazer, quando regressasse, as tradicionais lembranças para familiares e amigos chegados, mas como compreenderá, com a viagem a custar 422,91€/pessoa (ida e volta) é-me impossível concretizar o desejo, até porque, devido aos desvarios dos nossos maus governantes, extorquiram-me uma substancial fatia do 13.º mês. Admitindo, Pai Natal, que não tivesse estadia familiar na Madeira, uma semana num hotel de 3 estrelas em qualquer das cidades europeias que atrás lhe enumerei, ficaria mais barato. É espantoso, não é? Viagens e hotel (3 estrelas) no Funchal custariam entre 25 de dezembro e 1 de janeiro de 2012, 1 310,70€, contra 789,76€ em Barcelona ou 889,48 em Berlim (preços para 2 pessoas). Tarifas que eu consultei há poucos dias num popular sítio de viagens na internet. E não julgue que foi por falta de reserva atempada. Em agosto passado comecei a minha procura por essa net fora. Debalde. O que me põe à beira de um ataque de cólera é que todos me perguntam em que dia vou para a ilha. E em que ponto estratégico estarei colocado para o fogo? E em que dia regresso? Pai Natal, recuso-me mais a responder a tamanhas afrontas. Para não me maçarem mais torno público, através desta crónica, os motivos que me levam a não poder gastar alguns euros na minha terra, na melhor altura do ano para um madeirense regressar a casa. Mesmo neste momento de carestia financeira, viver in loco o Natal madeirense era tudo o que eu mais queria. Trocava-o por todos os presentes. É que Natal é Natal em qualquer parte do planeta, mas longe da nossa "festa", não é a mesma coisa. *Artigo escrito de acordo com a nova grafia.
Roberto Ferreira