Entrámos em Dezembro com orçamentos conhecidos. Um está aprovado, o nacional. Outro apresentado, o regional. Este ainda não foi votado, mas isso não é problema de maior, já que não corre o risco de ser recusado, nem devolvido. São esses os dois documentos que definem a actuação dos dois governos, o da República e o da Região Autónoma, respectivamente. Ambos têm preocupações comuns. Ambos procuram estancar as despesas e foram feitos a pensar que é preciso pagar dívidas, contendo ao máximo os custos e cortando onde ainda pode parecer que há gastos excessivos. Tenho alguma dificuldade em entender um orçamento que não prevê investimento, que segue uma filosofia de contenção exagerada e que não prevê mais receitas resultantes de iniciativas próprias, de projectos que criem riqueza e trabalho. Não serei, na verdade, a pessoa ideal para dar essa opinião, mas num país de treinadores de futebol e de gestores de bancada, que sabem de tudo e sobre tudo opinam, vou juntar-me a esses e deixar aqui escrito que estou decepcionado com os dois orçamentos. Pelos factos e razões que se conhecem, mas sobretudo porque esqueceram-se alguns sectores que podem, no meu entender, marcar a diferença, em áreas em que, porventura, somos mais competitivos e em que poderemos ombrear e bem com a concorrência. E refiro-me especialmente ao melhor relacionamento entre as Regiões Autónomas, porque há negócios nos circuitos domésticos que se podem potenciar em época de crise; com as antigas colónias, com as quais vivemos de costas viradas, vítimas de um ‘pecado’ do qual nunca nos desculpabilizámos, e cuja catarse continua adiada; com as comunidades de emigrantes com ligações que nos podem entrelaçar nos cinco continentes e onde estão disponíveis quadros preparados e certificados para nos dar a mão. Não há investimento para lá chegar. Prevejo que lá desembarcaremos por estes dias de mão estendida e de discurso estudado e a jeito para dizer a esses Portugueses que agora voltámos a precisar da sua ajuda, que nos enviem as suas economias de volta e que somos o destino ideal para as suas poupanças. Resta saber o que lhes oferecemos e entender, também, que confiança terão ainda neste País, se bem que não haja razões de maior para se afastarem de Portugal ou temerem um mau destino para os seus investimentos. Têm é de aconselhar-se bem, e isso, estamos certos, saberão escolher. A crise financeira afinal é conjuntural. Pior será a crise de valores políticos e sociais que aí, sim, atingem as estruturas. Seguindo nos orçamentos, vi pouco ou quase nada sobre um sector que hoje é de importância fundamental para o futuro do País e fulcral na Região Autónoma: o Turismo. Num sentido e noutro: quer na captação de turistas estrangeiros, quer nacionais, pois ambos mexem com a economia, ambos criam emprego e riqueza, com reflexos muito importantes junto das populações locais. Os orçamentos da República e da Região Autónoma perdem-se em considerandos, em justificações da dívida e dos calotes que deviam envergonhar a classe política, que assobia para o lado, com a justificação de que outros, de cores que não apreciam, é que causaram o problema. De problema em problema e sem respeito pelos que trabalham, apertou-se tudo e todos porque é preciso pagar contas. Vende-se o ouro e as jóias, satisfazemos os credores, mas esquecemos que amanhã é preciso comer, é preciso produzir, é preciso reconstruir o tecido económico de Portugal, torná-lo num país sustentável e competitivo. Precisamos encontrar parceiros de negócios e compradores para as nossas produções. Precisamos ter encomendas e vender. Penso que essa perspectiva não está (apenas) na Europa. Temos de olhar mais longe. Temos de ter ambição e ter uma atitude de confiança, que acalente o sonho de sermos rentáveis, de termos contas positivas e de podermos tomar conta de nós. Faz anos por esta altura – os mais velhos recordar-se-ão, certamente – que os estudantes madeirenses andavam de giz na mão, escrevendo nas paredes o número 1640. Um simbolismo que poucos entendiam, mas que se sabia ser ainda o eco desse grito de revolta que em 1 de Dezembro de 1640, em Lisboa, expulsou os espanhóis de Portugal. E era na Madeira que a celebração tinha esse cariz, onde até os Filipes, da tal Espanha – de onde não vêm bons ventos, nem bons casamentos – deixaram obra feita, de que o Palácio de São Lourenço é um exemplo. O gesto do giz, na arruada juvenil das noites de 30 de Novembro para 1 de Dezembro, que até assumia foros de subversivo porque executado na calada da madrugada, não tem paralelo com os dias de hoje, nem com a situação, mas leva-se a cismar sobre a possibilidade de que poderemos ficar subjugados a uns novos Filipes, que não são espanhóis, mas que nos governarão até pagarmos as dívidas. Depois teremos de começar de novo… E começar de novo custa muito, mesmo que haja vontade, determinação e ajuda. Temos de encarar estes Filipes e não estou certo que possamos retomar a “independência” nos anos próximos… Vou guardar um qualquer pau de giz, para escrever nas paredes a data de reconquista da "independência nacional". Não estou certo quando. Mas gostava de escrevê-la por mão própria.