A votação final global do Orçamento de Estado para 2012 assinala hoje, o fim de uma etapa de debates que, além de esperneios e suspiros, conheceu poucas ou nenhumas evoluções significativas capazes de suavizar um pacote de austeridade que ainda agora mal começou a subtrair, a conta-gotas, o orçamento familiar neste Portugal falido mas orgulhoso do seu fado. Um país que, num gesto de aparente resignação, se prepara para abolir a celebração de momentos históricos que assinalam epopeias como o feriado do 1.º de Dezembro. Como se já não houvesse restauração da independência possível, depois de o Estado Português se ter permitido chegar ao ponto de ser declarado insolvente. Incompetente para gerir e aprovisionar as suas próprias contas públicas, no contexto desta integração monetária de uma União Europeia com um défice comunitário a todos os níveis: social, de coesão, de solidariedade.

Não é, obviamente, a abolição dos feriados que me choca, nem o aumento de meia hora diária (quantas meias horas no sector privado!), nem mesmo a excepcionalidade da subtracção dos subsídios do 13.º e 14.º meses ou o aumento do IVA ou de toda a carga fiscal declarada ou por vigorar para pagar os devaneios de quem nos governa. O que me choca é perceber que todos estes sacrifícios que nos são impingidos em nome de valores e do patriotismo não merecem, da parte do Estado, o simples assumir de compromissos mais nobres que qualquer imperativo tributário ou nacionalismo exacerbado. Promessas que, há um ano e meio, aliviaram a consciência do governo de José Sócrates para com os nossos concidadãos que tudo perderam numa tragédia natural que teve São Pedro como culpado. O que me constange mesmo é o silêncio de todos, após sucessivas semanas de debate, sem ouvir uma voz de indignação parlamentar perante o corte do pacote de ajuda directa prometida às famílias de fracos recursos, vítimas da aluvião de 20 de Fevereiro, que até hoje mantiveram a expectativa de vir a receber a comparticipação a que tinham direito para recuperar a casa e repô-la como dantes. Gente que não tem hipóteses financeiras para reconstruir uma vida de novo.

A solidariedade, ou a falta dela, não é, como se vê, um exclusivo dos povos frios e ricos do centro e do norte da Europa. Felizmente, que o desgosto é contrariado pelo sinal de algum altruísmo que vem de quem menos se espera, de uma generosidade mais feroz que a austeridade e de uma solidariedade capaz de fazer corar de vergonha os governos da Europa e de Portugal e de brotar a esperança do mais triste fado. Estou em crer que podem levar o 1.º de Dezembro, pois nem a crise, nem a austeridade ou o egoísmo (que também existe), vão abolir esta independência restaurada, intrínseca ao nosso povo, para ajudar quem precisa. Contemos, portanto, connosco próprios "ó gente da minha terra".