Farto de ouvir governantes da treta a anunciar cortes e reduções, anos difíceis e nada prósperos, ou até a não anunciar nada, resolvi antecipar o fim-de-semana. Custa-me escrever antes de saber se o Marítimo se aguentou na Choupana, mas não vou desperdiçar a oportunidade de começar a gastar a metade do subsídio de Natal que tenho direito este ano, antes de entrar nos natais do antigamente. Porque para o ano não há nada para ninguém que trabalhe para o governo ou para aquelas empresas que têm gestores ruinosos ou não, mas bem pagos. Cansado de ver os amigos do poder a subir na vida, levando consigo alguns familiares, refugio-me nas patuscadas possíveis fora dos restaurantes que apresentam menus de Natal à medida da crise. Mesmo nestas comezainas baratuchas, há sempre quem reclame por estar a contribuir com qualquer quantia para comer e beber de manhã à noite, enfardando petiscos e bebendo sem moderação. Se fosse à borla estavam todos lá, nem valor dão pela organização e pelo trabalho que quem gosta disto tem. Às vezes nem aparecem nem dizem nada. São capazes de pagar uma azulinha (sem bufar) por um prato e dois copos de vinho rasca arrematados de café curto num qualquer restaurante, mas têm a grande lata de não contribuir com metade disso quando tiveram comida e bebida de qualidade à discrição, só porque foram alguns amigos a cozinhar. Não se recusam a pagar no restaurante, mas são capazes de pregar o calote ao amigo que dele se lembrou, usando essa mesma lata para vergonhosamente poupar uns euros para a cervejinha depois do jogo. Imaginem chegar ao bar e pedir meia dúzia de pés de cabra, chega a conta e paga só três porque acha que deve usar o resto do dinheiro para comprar tabaco. É gente desta que se arvora em empresário rico por esta terra e pede borlas para a bola porque outro espectáculo é culto demais. E pensam que a publicidade que passa é só aquela que diz bem. O BMW é bonito mas está podre no lado do condutor. É aqui que entram os amigos. Os verdadeiros, aqueles com quem contamos todos os dias. Nas patuscadas e nas enrascadas. Aqueles que comparecem, contribuem e agradecem e também organizam porque sabem retribuir e sabem conviver. Aqueles a quem podemos ligar a qualquer hora que até de pijama nos socorrem. Os que nos fazem rir e passar bons bocados, os que sabem que a vida é feita de momentos que devem ser aproveitados para mais tarde recordar. Não há muitos. Amigos destes e momentos que estamos sempre a contar na roda de convivas. E hoje, mais do que nunca, precisamos desses atalhos para fugir das crises de finanças e de emoções. É fazer BTT sem capacete nos altos e baixos do nosso quotidiano, marimbando-se para as pouco finas elites de assessores, adjuntos e outros boys sem vergonha que pululam no descrédito popular. É saber desprezar as moscas que rasam as "boseirinhas" sociais, dando o devido valor às pessoas que nos acompanham. Aos meus amigos, à distância de menos de um mês, um Bom Natal. Que as prendas sejam feitas de palavras amigas e sorrisos, de encontros de licores caseiros e abraços de broas da receita da avó. E sejam moderados, não atirem petardos (só) às finanças.

Paulo Gomes