Miguel Santos O novo Governo da República exibe sem preconceitos toda a sua veia neoliberal, defendendo - de forma quase dogmática - que o Estado é um mal que necessita ser combatido. É esta sua ideologia que explica a obsessão por 'emagrecer' o Estado, cortando a direito e de forma quase cega nos vários serviços públicos que foram sendo estabelecidos a partir do fim da ditadura do Estado Novo. Nesta mesma linha, o primeiro-ministro vem frequentemente afirmando que é necessário baixar o custo do trabalho para que a economia portuguesa se torne assim - de acordo com Passos Coelho - mais atractiva. Para que tal seja possível, e de acordo com as suas próprias palavras, Passos Coelho deseja implementar uma 'estratégia de empobrecimento' para a sociedade portuguesa! Naturalmente não concordo nem apoio tal estratégia pois julgo que a mesma será desastrosa para Portugal. A ideia peregrina e quase inocente que baixando os salários iremos atrair investimento estrangeiro para o nosso país esbarra na realidade do mundo globalizado actual. Hoje em dia é virtualmente impossível para um país como Portugal competir com base nos salários baixos quando enfrenta a concorrência de países como, por exemplo, a China ou a Índia! A realidade é que por muito que baixemos os salários em Portugal, os mesmos serão sempre superiores a estes países onde questões como a higiene e segurança no trabalho, os direitos humanos e os tempos de trabalho são completamente ignorados… O real problema da atractividade da economia portuguesa é a questão da produtividade e não tanto o custo do trabalho per si. De facto existem vários casos de empresas em Portugal com uma produtividade assinalável - como por exemplo a fábrica da Autoeuropa que, de acordo com a própria empresa, tem a maior produtividade entre todas as fábricas do grupo automóvel - que provam que a baixa produtividade tem mais a ver com a questão da organização do trabalho nas empresas do que propriamente com o custo do trabalho ou o número de horas de trabalho. E, como é óbvio, a falha nessa organização é dos extremamente bem pagos gestores portugueses e não dos trabalhadores…