Aqualificação da selecção portuguesa para o próximo Campeonato da Europa de futebol não ganhou a notoriedade própria de um facto pouco visto. Na verdade, e em relação a estes últimos anos, Portugal tem vindo a classificar-se com grande regularidade quer para o Campeonato da Europa quer para o Campeonato do Mundo. O que é então que esta qualificação envolveu de diferente que não se tinha visto nas outras? A polémica que no plano disciplinar rodeou a selecção e o seu seleccionador. Paulo Bento, que viria a substituir Carlos Queiroz já em plena fase de qualificação, não é propriamente alguém cuja maneira de agir não seja conhecida do público português. Uma passagem prolongada pelo Sporting, que lhe abriu de resto as portas da selecção aquando da emergência Queiroz, guindaram-no a um patamar de destaque, que inclusive o levou a ser apontado como candidato a chefiar a equipa técnica de um dos Grandes do futebol português: mais exactamente do F. C. Porto. Não se concretizou essa possibilidade mas abriu-se-lhe a janela da selecção onde Bento desenvolveu um trabalho a todos os títulos meritório, que culminou com a qualificação da equipa nacional para a fase final do próximo Campeonato da Europa. Qualificação essa que na fase Queiroz chegou a estar muito ameaçada. Acresce que com Bento nem tudo foi consensual, tal como já não o havia sido no Sporting. É que Paulo Bento, não obstante a indiscutível aura de respeitabilidade que granjeou, traz colado à pele o estigma de ser brigão e conflituoso, o que não é característica que recomende um treinador por melhor que se mostre o seu "curriculum". No Sporting, Ivkovic e Miguel Veloso, entre outros, tiveram problemas com Bento, e se com Veloso as coisas foram ultrapassadas conforme o demonstra a sua chamada para os decisivos jogos com a Bósnia, com o sérvio nunca se recompuseram, acabando ele por ter de regressar às origens. Na selecção, os conflitos que tiveram Bento por protagonista não se ficaram por escaramuças, como o evidencia o que aconteceu primeiro com Ricardo Carvalho, de resto tido por um jogador cumpridor e disciplinado, e por último com Bosingwa. E se este último não se mostra capaz de suscitar grandes entusiasmos, já Carvalho convocou a solidariedade de companheiros e de adversários que num movimento genuíno tudo fizeram no sentido de procurar levar o seleccionador a inflectir a sua decisão. Num caso como no outro, Bento não recuou nem reconsiderou por muito que tivesse sido invocada a folha de serviços sem mácula do jogador do Real Madrid. Acabando como sempre acontece em circunstancias que tais a irredutibilidade do seleccionador por dividir a opinião pública num povo que se mostra as mais das vezes propenso à desculpabilização. Não obstante tudo quanto em contrário se possa dizer, afigura-se-nos que Bento, por mais que possa doer, andou bem. Afinal, ele limitou-se a aplicar o princípio da responsabilidade. Ricardo Carvalho, sobretudo por ser quem é, conhece bem as responsabilidades que tem. É seguramente duro para quem não tem agora o leque de opções de que já dispôs num passado recente ter de abdicar de quem tinha o estatuto de insubstituível. A questão está em que quem tem o mando não pode compactuar com situações de excepção. Pode hipotecar-se a fazenda: mas não os princípios! Bento sabe disso.

Carlos Sequeira, Advogado