Finalmente, Portugal perdeu a vergonha. Não a vergonha das suas políticas, da fraca produção, dos truques à portuguesa e de tudo o resto que faz de nós um povo com problemas acima da média. Essas vergonhas continuam e têm ainda margem de progressão, estou certo. Mas, finalmente, Portugal perdeu a vergonha do fado. Do canto de Amália ou Carminho, da voz de Carlos do Carmo ou Camané e de tantos outros que o tempo foi projectando ou esquecendo. Finalmente, insisto, temos não apenas alguns líderes culturais que não têm vergonha do nosso ritmo mais genuíno, como também temos uma geração que ouve com atenção os acordes de uma guitarra, um fadista de olhos semi-cerrados, uma mulher de xaile a dizer palavras que vão muito além de frases que apenas rimam umas com as outras. O fado é nosso! E espero que seja nosso também o galardão do fado como Património Imaterial da UNESCO, que é atribuído este fim-de-semana. O prémio, mais do que merecido, não fará milagres, mas ajudará a divulgar uma música do mundo que só nos tem dado alegrias, que projecta lá fora parte do que de melhor temos por cá. Aquela melodia pesada, que se anuncia triste e é trauteada de forma pausada, é muito mais do que isso. É património de um País com História. É Cultura que não vive de frivolidades, que não escolhe idades, nem estratos sociais de um povo que, em larga escala, se emociona com um fado bem cantado e o choradinho de uma guitarra em boas mãos. Um País que venera Fátima e se arrepia com a selecção de Futebol, não pode ficar imune ao Fado que lhe está na pele. Felizmente, nas últimas décadas têm surgido não só muito mais fadistas - uns melhores do que outros, uns mais criativos do que outros, uns mais genuínos e tradicionais do que outros - mas, sobretudo, muito mais gente que não tem vergonha de dizer que gosta de fado. Que é capaz de partilhar esses sons nas redes sociais para mostrar estados de alma, que se cala quando alguém diz: "Silêncio!... que se vai cantar o fado!", que escuta palavras ditas com a alma, que se perde na escuridão das salas e que derrama palmas enquanto grita: "Ó fadista!". Esse povo, esse ritmo, essa música, melancólica mas não necessariamente triste, ajuda a definir Portugal, a dar identidade a um País que vive momentos muito difíceis. Finalmente, Portugal trocou a vergonha pelo orgulho de ter este canto, estes poetas, estes acordes. E isso é bom!