A capacidade reivindicativa da Madeira em Lisboa faz-me lembrar uma rábula antiga dos Gato Fedorento. Mal alguém abre a boca para chamar a atenção para questões pertinentes, que são precisas salvaguardar mesmo em tempos de cortes, alguém interrompe com aquele: “Pschhhttt...cala-te”.
A imagem de esbanjadora está de tal forma colada à Região, que já nem se pensa no concreto e fala-se só em abstracto. Só isso ou um profundo desconhecimento pode explicar a forma como se condenou no continente o despesismo que o Governo Regional vai fazer com as festas de fim de ano, luzes e fogo de artifício.
O que me surpreendeu não foi o facto de se criticar os elevados custos (que devem ser bem ponderados), mas haver quem sugerisse que a Madeira deveria fazer como outras regiões do país e abdicar das festas de fim-de-ano, da iluminação e do espectáculo pirotécnico. É óbvio que deve haver um esforço de contenção da despesa (que naõ sei se existiu nos termos que se exige), é preciso fazer mais com menos, mas o maior cartaz turístico da Região jamais pode ser uma desilusão para os milhares de turistas, que todos os anos se deslumbram com a festas natalícias da pérola do Atlântico e deixam lá o seu dinheiro. O impacte de uma (má) decisão dessas na economia regional seria desastroso, quando há tanta gente à espera do final do ano para reequilibrar as contas de negócios para os quais os madeirenses cada vez contribuem menos. E teria repercussões anos a fio.
Acabar com o fogo de artifício na Madeira seria, numa comparação absurda, mais ou menos com fechar as praias no Algarve este Verão, devido à manutenção elevada.
Há razões que levam a esta desconfiança de Lisboa em relação à Madeira, mas a Região não é (só) quem a Governa. A discussão apaixonada e sem racionalidade não é positiva nem para os portugueses de um lado do Atlântico, nem para os portugueses do outro.